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É fácil ser contra a guerra, difícil é ser russo!

Eu era um falido estudante de Ciências Sociais, angustiado entre, de um lado, a vontade de mergulhar no mundo acadêmico e conhecer os fazeres sociológicos, e, de outro, a necessidade de descolar uma grana e conhecer os prazeres deliciosos de jantar todo dia.


Até que o professor Arthur Gomes, com a habilidade de árbitro da FERJ, apitou uma jogada decisiva a meu favor: fez um convite para integrar o grupo de estudos liderado pela queridíssima professora Maria Dina, para estudar a cultura portuguesa no Rio de Janeiro, e, detalhe que me foi "seduzente", com uma bolsa de iniciação científica. Aquela angústia estava temporariamente bem encaminhada, bolsa + projeto de pesquisa, disse sim antes do professor Arthur me explicar melhor onde eu estaria me metendo.


Mas, as emendas foram ficando cada vez melhores do que o soneto. Com total liberdade de escolha do meu objeto de pesquisa e com a orientação sempre doce e perspicaz de Maria Dina, acabei trabalhando com o papel desempenhado pelo Real Gabinete Português de Leitura. Noutro momento digo melhor como foi isso, mas, adianto que me valeu um prêmio na UFRJ na Jornada de Iniciação Científica e mais tarde outro prêmio do CNPq.


O que me interessa aqui é que o trabalho no real Gabinete Português de leitura catapultou minhas atenções para a literatura e para o jornalismo português. Desse interesse nos patrícios eu mergulhei na incrível literatura portuguesa, e dela, pude compreende muito mais e muito melhor a produção sociológica dos nossos ensaístas: Sérgio Buarque; Gilberto Freyre e Caio Padro Jr. Fiz dois cursos sobre literatura portuguesa, um no próprio Real Gabinete e outro na Biblioteca Nacional. Esses cursos, além da beleza do português dos portugueses, me mostraram o que seria a tal "alma plástica portuguesa", o que seria "o português aventureiro"; o que seria "o amor pela miscigenação"...


Dois dias me impactaram em especial: quando ouvi o professor do curso de Letras da UFRJ, Jorge Fernandes da Silveira, lendo Camões depois de nos fazer ler um texto de José Mattoso sobre a formação da nacionalidade portuguesa. Professor Jorge dizia: "um dos traços da nacionalidade portuguesa foi erigido nas epopéias, no se lançar ao mar como aventura e como gosto pela incerteza"


"(...)Dai-me uma fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa,

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;

Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.(...)"

Camões, Luis de. Os Lusíadas. Canto I.


Noutro dia, relendo Fernando Pessoa, já com a chave de leitura que me dava a dica: veja como a crítica ao nacionalismo epopéico de Camões ganha um ar ferino, mas sofisticado. Uma desaprovação seguida de resiliência:


Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Pessoa, Fernando. Mensagem. Poema X - Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959.


A literatura passava ocupar um outro lugar nas minhas leituras. Além da arte, passei a buscar nos textos um universo guardado nas entrelinhas e que me ajudava entender um pouco de História, de Geografia, de Política, de Psicologia, de gente...


E aqui a Rússia se aproxima de mim pela primeira vez. Empolgado com a literatura portuguesa me inscrevi num outro, dessa vez de literatura... russa!!!! Na mesma biblioteca nacional e de novo com gente da minha UFRJ. Um barato.


Lia poemas de Aleksandr Pushkin (1799-1837). Até hoje é aclamado autor em toda região da Centro Europa, e sua questão primária era exatamente a grandiosidade russa e como os diferentes tipos de personalidades convergem para um grandeloquente universo russo. Com Pushkin a Rússia entrava com grande estilo no Romantismo. Na cultura mundial, ele simboliza a Rússia como Goethe simboliza a Alemanha, Shakespeare a Inglaterra, Camões Portugal, Dante a Itália ou Cervantes a Espanha. Sobre Pushkin, inclusive, pude ler parte de uma biografia feita por Homero Freitas de Andrade que acabou influenciando minha interpretação do poeta russo. A vida do Pushkin é inseparável de acontecimentos históricos incríveis, como: a Guerra Patriótica de 1812 (de defesa da integridade territorial russa face à invasão do exército napoleônico) e a insurreição dos dezembristas (primeiros revolucionários russos), de 14 de Dezembro de 1825.


Anna Akhmátova, nascida em Odessa em 1889. Anna tem uma história de vida marcada pela política. Ela casou-se com o poeta e crítico Nikolai Gumliev, opositor dos bolcheviques e crítico de Lênin. Ao final da vida Anna se dedicava á crítica literária e a crítica ao período de Stálin. Mas, em relação à sua obra, o tempo inteiro o que se lê é um passeio por um espaço russo que vai muito além de Moscou... Ela própria, nascida em Odessa, tratava como povo russo todo espaço narrado nas suas obras. Ela própria termina morando e morrendo em Leningrado (Anna falece em 1960, por isso Leningrado).


Fui apresentado a Boris Pasternak, poeta e prosador, nascido em Moscou em 1890. Era outro ferrenho crítico do socialismo soviético. No entanto, seu livro "Minha Irmã, Vida (1922)" foi um sucesso em toda Rússia. O romance mundialmente conhecido de Pasternak é "Doutor Zhivago", que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1958, mas Boris não foi autorizado a participar da cerimônia de entrega do prêmio. Mesmo crítico do regime soviético Pasternak descreve suas cenas num espaço que vai muito além das fronteiras físicas do território da Rússia. Ele próprio, trabalhava e morava nos Urais e toda sua família vinha de ricos judeus ucranianos. Mas, jamais deixou de tratar de uma gama de valores, costumes, etnicidades, que sempre alinhavavam uma idéia muitíssimo ampliada de sentimento russo.


Essa literatura me aproximou de uma forma muito diferente à Rússia. Da mesma forma que o curso sobre literatura lusitana acabou me inserindo de uma maneira intensamente peculiar no universo imagético português, a oportunidade de estudar um pouco de literatura Russa abriu dúvidas, questões, curiosidades, incertezas que foram muito úteis na minha formação e também sensíveis na forma como pude assimilar o conteúdo acadêmico sobre a URSS e sobre a experiência socialista.


Não bastasse essa inusitada aproximação com a Rússia, também tive a oportunidade de conhecer a obra de Ágnes Heller. A filósofa húngara veio ao Brasil e deu uma conferência no auditório da Universidade Cândido Mendes. Eu havia lido "Políticas de la postmodernidad: ensayos de crítica cultural", de Heller. A oportunidade de assistir a autora era um prêmio. Mas, foi bem mais que isso.


Ocorre que Ágnes apresentou, na conferência, o que considero até hoje a janela de leitura crítica mais poderosa da experiência socialista soviética. A filósofa defendeu que a Federação de Estados compreendida pela URSS era, ao mesmo tempo, extremamente coerente histórica; geográfica; política; economicamente... mas, também, era agudamente diversa culturalmente, abrigando religiosidades, etnicidades, cosmovisões que davam uma rica dimensão aos povos da região RUSSA. Ela insistia nesse termo, RUSSA.


As críticas ácidas feitas por Ágnes contra o stalinismo se centravam exatamente num tratamento uniformizador, insensível e com inaceitável imposição moscovita. A federação, que poderia reunir povos muito distintos, mas que cultivavam um sentimento de pertencimento realmente forte, havia se tornado, na leitura de Heller, em uma máquina de destruição de vivências, culturas e especificidades. Defendeu Ágnes Heller, ali estavam as bases do que viria se tornar, mais adiante (depois da liderança de Stálin), a pedra de toque do desmanche da URSS.


Considerei muito pertinente a crítica e tratei de estudar sobre o assunto. Mas, aqui interessa é o impacto que teve, mais uma vez, agora com a filosofia de Ágnes Heller, a idéia de um Espaço de vivências e sentimentos compartilhados compreendido na idéia de uma Rússia para além das fronteiras de Moscou.


Definitivamente, a Rússia, mais do que uma fronteira estatal, um marco político-administrativo, pode ser perfeitamente compreendida de uma forma ampliada. As experiências culturais, linguísticas, religiosas, políticas formam um emaranhado muito mais complexo do que o interesse geoestratégico que as potências do Ocidente pretendem enquadrar todo o território dos Bálcãs, Cáucaso até Moscou.

Mas, por que cargas d'água isso é relevante nesse momento?


Porque hoje eu não consigo pensar na atual região do conflito Ucrânia-Rússia sem essas referências.


Compreendo e apoio a noção de autodeterminação dos povos. Considero que as vontades populares dizem muito sobre a melhor forma de organizar politicamente os territórios. Mas não posso simplesmente apagar que em todo território que hoje se conflagra na Europa, há complexidades que estão sendo aplainadas pelos interesses geoestratégicos, sobretudo, estadunidenses.


Esses interesses estão, inclusive, categorizados pela literatura acadêmica. Antes da eclosão da Segunda Grande Guerra já ganhava fôlego nos Estados Unidos um conjunto de proposições que miravam o território Russo e seus entornos como estratégico para o fortalecimento da hegemonia estadunidense nas relações internacionais.


Nada disso, nadinha, aparece na cobertura jornalística que gera conteúdo para todos nós. O discurso, quase que único, repete ao cansaço a cartilha de um presidente malvado, Putin, contra um povo indefeso, os ucranianos.


Não resta dúvida que o povo ucraniano padece, é vítima e sofre com a guerra. De todos atores desse teatro de horrores, é o povo ucraniano o mais penalizado. E, sim, Putin é um totalitário, conservador e violento. O drama é que olhando com um pouco mais de calma, um pouco mais de jeito, tentando enxergar o que se traveste de pureza e não aceitando tão apressadamente o capuz da alienação, muitos novos tons se descortinam.


enxergar, no espaço, corresponde a antever no tempo

Rui Barbosa. A Imprensa, 16 de novembro de 1898.


Nós nos acostumamos a olhar para a imagem do mundo como mostrado na figura:





A turma da Geografia entende bem que esse "mapa", um cartograma na verdade, é desenhado a partir de uma certa projeção cartográfica: Projeção de Mercator.


Aqui, a representação oferece uma idéia de imensa distância entre Rússia e EUA. Oferece também uma idéia confortável de que a Rússia é um gigante territorial protegido pela sua "posição natural".






Mas, e agora? Se mudarmos a forma de olhar para o mudo as tais "posições" parecem mudar um pouco de sentido. A Projeção Azimutal Equidistante é a mais usada na Europa, nos EUA e na ONU.




Afinal, qual a relevância de "olhar para o mundo" por essas distintas projeções cartográficas?


É que, dependendo da forma como olhamos e dependendo da forma como recortamos nosso olhar, muitas novas possibilidades de interpretação dos fenômenos se descortinam.



A grande gritaria contra Putin, aliás, vale repetir, um totalitário brutal, tenta fazer crer que a Rússia promove um cerco contra a Ucrânia e dissemina a idéia de que desde sempre Moscou agia no sentido de tomar, pela força, o país. Mas, como vou descrever aqui adiante e como podemos já constatar no mapa acima, essa narrativa estadunidense não se sustenta. Pelo menos não é o único cerco implementado. Que a Rússia moveu seus postos militares para que a invasão ao território ucraniano se viabilizasse é fato. Mas, bem antes, mas, muito antes, a Rússia é cercada, ameaçada, intimidade e alvo de uma política que a literatura chama de Contenção Russa.


Mit der Dummheit kämpfen Götter selbst vergebens

(os próprios deuses lutam em vão contra a estupidez)

Friedrich Schiller


O geógrafo estadunidense, Nicholas J. Spykman foi quem deu forma conceitual à política de Contenção da Rússia. Segundo o estrategista do governo dos EUA:


"(...)as relações entre a América do Norte e os dois lados do continente eurasiano são as linhas de base da política mundial, enquanto as relações entre a América do Sul, Austrália e África não são tão fundamentais. (1942, 178)(...)"

Spykman, Nicholas John. America's Strategy in World Politics: The United States and the Balance of Power. Institute of International Studies, Yale University. New York: Harcourt, Brace and Company. 1942.


Spykman conseguiu influenciar a política externa dos estados unidos confrontando uma idéia bastante consolidada por Mackinder, a heartland. O geógrafo inglês, Mackinder, considerava que o ponto central da Eurásia reunia os artefatos estratégicos mais fortes no jogo de "equilíbrio de forças internacional". O geógrafo Spykman tentava demonstrar que esse centro de poder poderia estar fixado em um espaço menos centralizado, mais diversificado e posicionado no cinturão da chamada heartland.


Spykman foi o primeiro estrategista a defender que:


"Quem controla o Rimland domina a Eurásia; quem domina a Eurásia controla os destinos do mundo". Mello, Leonel I. A. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo: Hucitec/Edusp, 1999. pág, 126.



Ainda, sob a interpretação do professor Leonel Mello, a idéia de Rimland ganha um complemento poderoso: a Teoria da Contenção. O Historiador e diplomata George Frost Kennan formulou aquilo que viria a ser o centro das ações estadunidenses no cenário internacional pós segunda guerra. No texto de Mello:


"(...)a doutrina Kennan pode ser resumida na seguinte sentença: 'É claro que o principal elemento da política norte-americana em relação à URSS deve ser a contenção a longo prazo, paciente, porém firme e vigilante, das tendências expansionistas russas.'(...)" Mello, Leonel I. A. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo: Hucitec/Edusp, 1999. pág, 131.


Rapidamente, em 1949, a Teoria da Contenção ganha um formato institucional concreto: a OTAN.


Muniz Bandeira, no seu "A Desordem Mundial", registrou a declaração do primeiro secretário-geral da OTAN, Lord Lionel Ismay, que viria a ser o slogan da real função da OTAN: "to keep the Americans in, the Russians out and the Germans down".


Não é preciso recuar tanto na história e lembrar das invasões contra o território russo promovida por Otomanos, Gregos, Árabes, Poloneses, Franceses... Basta tomar como marco a explícita política de Contenção contra Rússia, promovida pela OTAN para não termos nenhuma dúvida de que a insegurança é um sentimento presente e muito real.


Antes da OTAN a segurança da Rússia já era o centro da preocupação das lideranças soviéticas. E as medidas de proteção das fronteiras russas e medidas de respeito ao povos russos (no plural) era pedra de toque da ação diplomática de Moscou. Nos desdobramentos da Segunda Guerra, os chamados Três Grandes — o presidente americano Franklin Roosevelt, o premiê britânico Winston Churchill e o líder soviético Joseph Stálin — concordaram em se encontrar em Yalta, balneário russo, na Criméia, à beira do Mar Negro. Stálin estava determinado a reerguer a URSS. Foi a Yalta buscando uma esfera de influência no Leste Europeu, como uma zona de amortecimento que protegesse a União Soviética.



O acordo em Yalta buscava garantir que as potências capitalistas permanecessem distantes das fronteiras russas. Mas, a criação da OTAN desafiava a precaução das lideranças russas. Um dos fundamentos para a criação do Pacto de Varsóvia, 1955, era exatamente resistir à Contenção contra Rússia. Um dos acordos firmados com a OTAN disciplinava que os países membros de ambos tratados não deveriam ser alvo do assédio do adversário. Sem muito disfarce, no entanto, as potências ocidentais tratavam de alargar as áreas de influência da OTAN, quase sempre depois de episódios de graves ingerências nos Estados do Leste da Europa, estimulando guerras e tensões internas. A fragilização do cinturão que separava a OTAN dos povos russos e, mais tarde, a incorporação dos países no rol do tratado atlântico, escalou uma ofensiva da política de Contenção da Rússia não experimentada antes da década de 1990.





Sousa, Danilo Rogério. A Contenção da Rússia: geopolítica, estaticídio e astropolítica. Tese Doutoramento - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP. São Paulo, 2019. 488f.


Não bastasse a clara efetivação da política de contenção contra a Rússia uma outra frente, complementar, é urdida sob a orientação diplomática estadunidense. O chamado Intermarium.


Intermarium é o conjunto de iniciativas que, em paralelo ao avanço da OTAN na região do Leste Europeu, propõe ações de coordenação política, econômica e militar do cinturão mais externo da zona de influência da OTAN.


Segundo Danilo Souza (2019),


"(...) Uma das manifestações disso é o papel Polonês para ampliar a OTAN na região. De acordo com Kieniewicz (1997, pag. 56) 'a Polômia quer e deve interceder pela vinculação da Bielorrússia na OTAN, uma vez que esse país é inseparável da parte da Europa que deveríamos voltar a chamar de Intermarium. Sousa, Danilo Rogério. A Contenção da Rússia: geopolítica, estaticídio e astropolítica. Tese Doutoramento - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP. São Paulo, 2019. 488f.

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-08102019-143437/publico/2019_DaniloRogerioDeSousa_VCorr.pdf



O mesmo autor segue:




A atual ofensiva dos EUA contra a Rússia acontece na forma de movimentação de uma peça chave na sua política de Contenção da Rússia. Tomar a Ucrânia seria uma forma de mitigar os tropeços na Geórgia (2008) e na Criméia (2014). Nessas duas ocasiões os EUA processaram exatamente os mesmos movimentos agora experimentados na Ucrânia, qual seja, movimentar seus esforços políticos, econômicos, diplomáticos, como medidas de desestruturação interna dos países e, no passo seguinte, surgir como alternativa de estabilização e pacificação incluindo mais uma fronteira próxima da Rússia no rol da OTAN.

Ocorre que Putin tem sido resoluto. Foi assim que se uniu aos separatistas russos nos territórios de Ossétia do Sul e da Abecásia, em 2008, e, na Criméia em 2014 anexou histórico território de maioria russa.


Agora, em 2021-2022, ainda sob a égide da pior pandemia da história recente, os interesses geoestratégicos dos EUA se movem e ameaçam tanto a Rússia quanto os povos russos fora das fronteiras de Moscou.


Não vou reproduzir aqui nesse relato as imagens nauseantes de grupos neonazistas a serviço do governo de Kiev (governo direitista, aliado dos EUA e resultado de um golpe de Estado) inseridos como combatentes da Ucrânia contra separatistas russos nas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk.

A postura Russa está resumida assim num pronunciamento do Partido Comunista da Federação Russa.


"A militarização da Europa Oriental após a dissolução do Tratado de Varsóvia é um fato. Os projetos agressivos de Washington foram demonstrados no processo de destruição da Iugoslávia. Os planos dos EUA e seus satélites da OTAN para escravizar a Ucrânia não devem ser realizados. Esses planos agressivos criam ameaças críticas à segurança da Rússia. Simultaneamente, eles contradizem descaradamente os interesses do povo ucraniano".

https://cprf.ru/2022/02/the-people-of-ukraine-must-not-be-a-victim-of-world-capital-and-oligarchic-clans-statement-of-the-cprf-cc-presidium%ef%bf%bc/


Em texto publicado em 24/02/2002 no site vermelho.org.br o especialista em China Elias Jabbour aborda a questão econômica que também atravessa os interesses estadunidenses e demais potências ocidentais. Evitar que a Rússia se transforme em uma fornecedora vital de energia é uma das questões econômicas sensíveis em jogo.


Sabemos, a infraestrutura econômica é, ao fio e ao cabo, determinação para suas expressões nas superestruturas. Esse é o fio da meada em Marx e nos marxistas.


Mas, nessa abordagem a dimensão tratada é outra, que termina também sendo infraestrutural, que é o papel da OTAN como artefato institucional da política de Contenção Russa.


O próprio Jabbour registra as preocupações chinesas:


“Acredito que a operação militar da Rússia é uma reação de Moscou à pressão dos países ocidentais sobre a Rússia por um longo tempo”, disse Yang Jin, pesquisador associado do Instituto de Rússia, Europa Oriental, e Estudos da Ásia Central sob a Academia Chinesa de Ciências Sociais, ao jornal chinês Global Times na quinta-feira última.

A chancelaria chinesa é ainda mais objetiva. Segundo sua porta-voz, “as preocupações legítimas de segurança da Rússia devem ser levadas a sério e tratadas”

Jabbour, Elias. A posição chinesa sobre o conflito na Ucrânia é um aviso, por Elias Jabbour. Portal Vermelho. 24 FEV 2022.


Jabbour chama atenção para os desdobramentos do conflito Ucrânia-Rússia. A ação militar russa, e uma possível fixação das posições separatistas em Donetsk e Lugansk significariam mais uma ação frustrada do centro de poder ocidental, capitaneado pelos EUA. Isso ocorrendo pouco depois de uma derrota muito dura contra os EUA no Oriente Médio. Se por Ordem Mundial, a linguagem marxista quer tratar da Divisão Internacional do Trabalho, certamente o cúmulos desses processos vão dando tom de novos contornos na concentração de forças internacionais.


A posição dos EUA na "nova DIT" (meados do século passado), dependia do sucesso da política de Contenção Russa, como depende de uma nova onda de contenção chinesa. O avanço da OTAN sobre o atual território Russo é claramente expressão da política de Contenção. Logo, é fenômeno de uma DIT que parece estar em franco redesenho.


Em um mundo que redesenha sua configuração de forças a China tem um papel central. Tem, por isso mesmo, papel central no conflito Ucrânia-Rússia. E, os movimentos que se depreendem da China são exatamente de operar no espaço pretendido pelos EUA como prioritário no seguimento da sua política de Contenção da Rússia.


O projeto Belt and Road Initiative é uma soma de movimentos chineses no cinturão por onde atua a expansão da OTAN. E, sobretudo a partir da pressão na Ucrânia, feita pelos EUA, podemos estar presenciando uma nova escala de relação entre Rússia e China.



Sousa, Danilo Rogério. A Contenção da Rússia: geopolítica, estaticídio e astropolítica. Tese Doutoramento - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP. São Paulo, 2019. pág. 297.



Esse Projeto Belt and Road Initiative implementado pela China se espalha pela buffer-zone da Rússia, o que discutimos antes com o nome de "RIMLAND"




Essa é uma ação que pode ser tratada pelos russos como uma oportunidade de contra-contenção. Daí que uma aproximação entre Rússia e China possa ser uma das pedras angulares da nova divisão internacional do trabalho, uma nova ordem mundial.


Essa possível nova ordem é tema para outro momento, aqui interessou apresentar algumas outras problematizações que tornam o drama vivido pelo povo ucraniano e pelos povos russos algo muito mais complexo do que o simplista jogo entre o "bem e o mal" tão disseminado pelas plataformas de comunicação ocidentais. Eu que me aproximei dessa idéia de sentimento e pertencimento russo pela via da literatura, simplesmente não consigo deixar de ficar angustiado com a alienação propagada pelas plataformas de comunicação.


Elas de lá, defendem seus interesses, nós de cá, tratamos de olhar pro mundo de muitas maneiras e de respeitar as pessoas, as suas histórias, as suas culturas e as suas dores.

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