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BBB 24: Davi e o medo do homem negro

Por Jorge Alexandre Lucas, jornalista.



Crédito: Divulgação


Mais um BBB, o de número 24 e como sempre trazendo polêmicas interessantes dentro do pacote de entretenimento. Eu quero participar desse debate e faço esse convite a você que gosta de assistir ao programa, porque esse tema diz respeito a todos e todas. 


O medo do homem preto


Nós já estamos no BBB 24, são 24 edições e nunca um homem negro venceu esse programa. Mulher preta já. Nós já tivemos vencedoras do bbb, uma mulher negra, uma mulher indígina, mulher nordestina, mulher dona de casa, patricinha, e até lésbica. Nós já tivemos tambem vários segmentos masculinos distintos, já tivemos playboy, agroboy, fazendeiro, pedreiro, crossfiteiro, malandro, e homem gay… mas nunca um homem negro. 

Por que?


Por que a sociedade brasileira tem medo do homem negro?

Não há uma resposta simples, curta, o tema é bem complexo, mais do que eu possa trazer. Posso sim fazer alguns apontamentos, começando por uma conversa que tive com meu pai, que já faleceu a mais de 20 anos, e que ele me dizia o seguinte: “Imagina que por algum motivo, eu sou detido, e vou a júri popular, meu filho: se os jurados forem todos pretos eu já estou condenado”.

Você pode estar se perguntando, como assim?


Meu pai, que era negro e sofreu racismo em várias circunstâncias da vida, me dizia que o racismo é hegemônico na nossa sociedade. Que o racismo, é uma ideologia dominante em toda a sociedade. 

Todo mundo precisa saber que as ideologias dominantes de uma época, e aprendemos com Marx, são as ideologias de interesse da classe dominante. Jessé Souza, alerta que no caso brasileiro essa classe dominante tem especificidades bem marcadas e talvez a particularidade mais potente da constituição dos setores sociais dominantes no Brasil é sua indissociada origem escravista. 

Entender o racismo, na verdade, não é nada simples. Mas, não basta o fenótipo, a pele, o sangue, para

classificar os grupos de indivíduos entre aqueles que operam o racismo e aqueles que são vítimas dele. Na verdade, basta olhar um pouco a produção jornalística ou os vastíssimos trabalhos das Ciências Sociais, que notamos não ser raro o mesmo indivíduo frequentar esses dois lugares do contexto social: produtor/reprodutor do racismo e vítima da exclusão racial.


Para Sílvio Almeida (2018) a raça é um elemento essencialmente político e foi através da antropologia no século XX que se pôde compreender que fatores biológicos e/ou culturais não justificam o preconceito racial. Contudo, o elemento raça ainda é usado como parâmetro para normalizar desigualdades e legitimar a exclusão social. Um bom começo para compreender a perversa lógica de marginalização racial no Brasil e, ao mesmo tempo, perceber que a questão racial está longe de ser reduzida à mera expressão da cor, é lembrar os trabalhos do sociólogo Oracy Nogueira. No seu livro “Tanto preto quanto branco”, Nogueira (1985) relata as peculiaridades do racismo no Brasil, oferecendo o rótulo “preconceito racial de marca”, em detrimento do “preconceito racial de origem”, que vigora nos EUA. 


Nogueira afirma: “Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para sofrer as consequências do preconceito, diz-se que é de origem”. (1985)


A principal advertência de Oracy Nogueira é que a questão racial no Brasil é uma complexa articulação entre condição de cor e aparência, por um lado, e situação de pertencimento e marcas de sociabilidade, por outro. Quer dizer, além da origem do indivíduo, as marcas sociais que ele carrega, as suas sociabilidades, a sua cor, a sua cultura, a sua condição laboral, são elementos distintivos inscritos nas manifestações de preconceito e/ou distinção racial.


Esse é um enfrentamento complexo, o combate ao racismo ganhou fôlego mais expressivo no Brasil nessa última década, forçado pelo acúmulo de enfrentamentos, e também pela exposição que as redes sociais trazem. Nesse entendimento posso citar outro exemplo. Em 2013 nós tivemos a eleição da primeira e única Globeleza eleita pela massa, pelo povo brasileiro, e que foi também a única Globeleza negra, e faço aqui uma distinção de marca, todas as outras foram mulatas.


A Nayara venceu o concurso no Fantástico em 2013, de forma avassaladora e inconteste, mas teve sua carreira como musa do carnaval encurtada porque os racistas não aceitaram uma mulher negra, carismática e bonita como protagonista da maior e mais popular festa do país. Essa situação talvez tenha sido amenizada na edição do BBB de 2020, quando a Thelma Assis, médica, negra, venceu a edição, foi a segunda mulher negra a vencer um programa de televisão com participação do público.


Eu tenho muitos amigos queridos que criticam o formato do programa, que falam de alienação, dominação e manipulação, etc., mas eu tenho comigo que o programa traz sim muitas polêmicas interessantes, o BBB é um programa de entretenimento, tem suas nuances, acredito que nem tem a pretensão de ser algo diferente, no entanto, como tudo no mundo, não é neutro, não é isento. O BBB é uma potência de mercado, em todos os sentidos. E, o "comportamento" dos produtores do programa é absolutamente um comportamento voltado para o que é cerne do produto: mercado. Para o Sociólogo Peterson Leal Pacheco, a pergunta feita pelos produtores na escolha do elenco parece que é: que configuração de produto será mais eficaz para audiência e vendas?, “A maior presença ou ausência de sujeitos sociais, mais ou menos inclusão, cada um desses elementos é resultado de pesquisa de mercado”. 


Peterson lembra a todos inclusive que o "programa" NÃO É O DIA A DIA DAS PESSOAS. O programa é a EDIÇÃO DOS PRODUTORES.


O que eu posso afirmar, que mesmo assim, vez por outra, o programa traz as contradições da nossa sociedade racista e preconceituosa para o debate, e como numa novela, e é assim eu que vejo, tem boas temporadas e temporadas ruins, dependendo do elenco; às vezes os produtores acertam nas escolhas. 


Nesse sentido, uma das melhores edições/temporadas foi a de 2021, quando a Juliete venceu. Eu torci muito por ela, mas antes, eu torci muito para o Gil do vigor, ele sem dúvidas merecia ter vencido, uma figura cativante, inteligente, um doutor no meio da selva espetaculosa do divertimento puro, e mesmo assim, antes dele, eu estava torcendo para o Lucas. Garoto bom, simpático, honesto, lutador, liderança estudantil que participou da mobilização de milhares de estudantes em defesa da educação pública em São Paulo.


Lucas foi vítima do preconceito contra o homem negro, e pior, teve os maiores ataques no programa, vindo dos participantes negros. O Negro Di, um estúpido que fez piadas horríveis sobre a saúde do Arlindo Cruz, que foi parar no BBB por sorte, outro dia eu até falo sobre isso, e contou com a parceria da Karol com K. 

Karol que foi uma surpresa negativa no programa, eu acreditava que ela era natural de Brasilia. Eu sou fã e só percebi que ela era de Curitiba pelo discurso. Pela fala. 


Karol não tinha no programa um lugar de fala de uma mulher preta empoderada, não, não tinha. Ela falava de outro lugar. Karol usava o lugar de fala de uma mulher branca de classe média de Curitiba, uma fala, de um povo que se acha melhor que todo mundo, não generalizando, é claro, mas que há, sim, uma maioria em Curitiba que acredita que no nordeste só tem gente sem educação e sem cultura, gente pobre e na miséria. Quer dizer, uma visão totalmente distorcida da realidade, assim como o povo brasileiro tem uma visão distorcida do continente africano.


Voltando ao caso do Davi, o baiano de Salvador, 21 anos, que trabalha como motorista de aplicativo. O rapaz já trabalhou com informática e almoxarifado antes de ganhar a vida dirigindo. Fez curso de gastronomia, a exemplo do pai. 

Assim, quero terminar dizendo o seguinte: Sou da opinião que ele é um menino bom, guerreiro, que tem suas limitações e contradições, mas vejam só, o sonho dele é ser médico. Quantos médicos negros há no brasil? Não chega a 4%.  


Davi apesar das condições adversas em que cresceu, me parece que tem sim valores e compreensões boas da vida. Tem preconceitos e contradições frutos da realidade duríssima em que viveu, mas que fez do limão uma limonada, e que consegue lutar com dignidade pelos seus sonhos. Mano Brown chamaria o Davi de, “um preto classe A”, esse incomoda muita gente. E pode incomodar muito mais se for o primeiro homem negro a vencer o BBB.

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