A sanha bolsonarista: da tragédia à farsa

Por Darlan Reis Jr., historiador


O texto a seguir parece ambientado no Brasil do século XXI. Mas na verdade é um relato da França no século XIX. Vejamos.


"O período que temos diante de nós abrange a mais heterogênea mistura de contradições clamorosas: constitucionalistas que conspiram abertamente contra a constituição; revolucionários declaradamente constitucionalistas; uma Assembleia Nacional que quer ser onipotente e permanece sempre parlamentar; uma Montanha que encerra sua vocação na paciência e se consola de suas derrotas atuais com profecias de vitórias futuras; realistas que são patres conscripti (senadores romanos) da república e que são forçados a manter no estrangeiro as casas reais hostis, de que são partidários, e a manter na França uma república que odeiam; um Poder Executivo que encontra sua força em sua própria debilidade e sua respeitabilidade no desprezo que inspira; [...].

O partido da ordem parece estar perpetuamente empenhado em uma "reação", dirigida contra a imprensa, o direito de associações e coisas semelhantes, uma reação nem mais nem menos como a que sucedeu na Prússia, é exercida na forma de brutal interferência policial por parte da burocracia, da gendarmaria e dos tribunais, A Montanha, por sua vez, está igualmente ocupada em aparar esses golpes, defendendo assim os "eternos direitos do homem", como todos os partidos supostamente populares vem fazendo, mais ou menos há um século e meio. Quando porém, se examina mais de perto à situação e os partidos, desaparece essa aparência superficial que dissimula a luta de classes e a fisionomia peculiar da época".

(Karl Marx, O Dezoito Brumário, págs. 47-51.)

Golpistas, constitucionalistas, monarquistas, militaristas, reformistas, enfim, só não citados os fascistas porque eles ainda não haviam aparecido no espectro político da época. Mas o que esse texto de Marx tem a ver com os fatos de hoje, do "Sete de Setembro" brasileiro de 2021?



A tragédia e a farsa.


O trecho mais famoso de O Dezoito Brumário explica a imagem acima:


"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada".

(Karl Marx, O Dezoito Brumário, págs. 21-22.)


O que vimos hoje no Brasil foi a farsa evocar a nossa verdadeira tragédia: o passado da ditadura militar-burguesa, que aumentou a desigualdade social, a dependência externa, causou mortes e perseguição, aprofundou a herança colonial-imperial-escravista. Tudo isso com ares de nostalgia ao mundo da Casa Grande e da Senzala. Os golpistas da farsa atacam a atual democracia burguesa porque querem mais poder político, porque temem até o reformismo tímido do passado recente, porque negam o valor da ciência, porque mentem para tentar desviar a atenção para a dura realidade em que vive a maioria do povo: fome, desemprego, injustiça social.


Mas a horda da farsa que não se engane, pois a repulsa da maioria da população à ela aumenta a cada dia. Mesmo parte dos setores golpistas de 2016 tem hoje em mente que é preciso deter a horda fascista. Sabemos que é mais para não perder os dedos, por isso, vemos todo o discurso dos demais "poderes" da República, bem como da Rede Globo, ou da Folha de São Paulo. Também o amplo espectro da Esquerda, com todas as suas idiossincrasias, divisões, diferentes estratégias e táticas, continua a fazer oposição ao governo da farsa.





Portanto, neste Sete de Setembro de 2021, ainda que distantes da verdadeira independência e soberania popular, continua viva a esperança de dias melhores e a certeza de que é preciso derrotar este governo. Por isso, mais do que nunca, dizemos: "Fora, Bolsonaro".


Referência

MARX, Karl. O Dezoito Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.