China: o que não é ameaça é mercado

Por Marcione Oliveira, professor.


Enquanto países conservadores querem ditar o que os outros tem que fazer, a China, pelo contrário, quer apenas aumentar o seu poderio de mercado e com isso, a cada dia, expandir sua influência no mundo.

Até mesmo nos Jogos Olímpicos de Tóquio, pelo menos em grande parte da competição, pela primeira vez vimos jornais estadunidenses apresentando o ranking do quadro de medalhas organizado a partir do número absoluto de medalhas. É dessa maneira que a imprensa nos E.U.A. conseguia mostrar o país, e não a China, em primeiro lugar no ranking de medalhas.




A China comunista, aos olhos dos mais conservadores, é um sistema misto. Há um esforço em se defender a tese que atribui aos chineses o desenvolvimento de práticas capitalistas e a partir daí justificam uma certa tolerância em relação ao modelo econômico chinês. O povo chinês entende que a soberania do país tem que se resolver pelos próprios habitantes locais e com isso, ampliam sua margem de vendas mundo afora com seus produtos e mercadorias.




Hoje em dia podemos dizer que a China emerge como potência econômica, tecnológica e militar e é razoável compreender que o país enfrente as resistências de todas as outras potências mundiais. No entanto a China tem se colocado em posição de constante diálogo e tem enfrentado as questões que afetam a defesa da sua economia ou da sua soberania de maneira a estimular o diálogo com as demais nações, reforçar as instituições multilaterais e receber com otimismo a construção de canais de comunicação com as lideranças internacionais. Assessores do atual presidente dos Estados Unidos já tentam convencer Washington que a melhor maneira de tratar conflitos e divergências em relação à China é estabelecendo um canal direto de conversações com o governo de Pequim.


“(...)Uma linha direta para Pequim permitiria que o presidente Joe Biden, ou altos funcionários de sua equipe de segurança nacional, enviassem imediatamente chamadas ou mensagens criptografadas ao presidente Xi Jinping ou às pessoas ao seu redor, de acordo com as duas fontes. Por exemplo, informações urgentes podem ser compartilhadas sobre movimentos militares repentinos ou mensagens de alerta enviadas sobre hacks cibernéticos(...)”.

“(...)’Há uma preocupante escassez de ferramentas para gerenciamento de incidentes na relação EUA-China. É muito urgente que o governo dos EUA busque linhas de comunicação que permitam responder a uma crise ou prevenir uma crise. Precisamos de uma operadora de 911 (número de telefone da emergência nos EUA) por assim dizer’, disse Danny Russel, ex-secretário assistente do Departamento de Estado(...)”. (Governo Biden pode estabelecer 'telefone vermelho' com a China para emergências, CNN Brasil, Internacional. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/07/14/governo-biden-pode-enviar-telefone-vermelho-a-china-para-emergencias).


A China tem encaminhado seus conflitos territoriais na base das discussões no plano diplomático e não registra em seu território grandes ameaças de cunho religioso ou étnico.

Com esta ampla vantagem, podemos dizer que a China hoje enxerga cada território, não como uma ameaça para suas pretensões mundiais, mas como um oportunidades políticas e econômicas de aumento de sua real importância no mundo. Aqui vimos um importante deslocamento estratégico de influência global. Os eventos no Afeganistão se apresentam como mais um símbolo bastante concreto de uma nova soma de pesos e influências globais, e nesse novo cenário é inegável que a China assume papel de protagonismo.

Já em 2009 o autor Jan Nederveen Pieterse perguntava: O Fim do Império Americano? Os Estados Unidos depois da Crise (Livro lançado pela editora Geração Editorial; 1ª edição em 2009). ´Nos últimos dias do mês de Agosto de 2021 a fragilidade estadunidense fica ainda mais escancarada e crescem os espaços ocupados pela China. Uma síntese sobre o novo quadro de forças mundial pode ser bem notado na repercussão da derrota estadunidense no Afeganistão. Lucas de Abreu Maia define essa derrota como “Nocaute no Poderio dos Estados Unidos”.


“(...)A queda de Cabul neste domingo, 15 de agosto de 2021, entrará na história por muitos motivos. O principal deles, claro, é a tragédia humanitária. Dezenas de milhares de civis afegãos foram condenados à morte por nenhum outro motivo senão estarem no lugar errado na hora errada. As imagens chocantes de afegãos desesperados pendurados na fuselagem de um avião em decolagem do aeroporto de Cabul, nesta segunda-feira, foram imediatamente comparadas à constrangedora retirada norte-americana de Saigon, em meio à derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, em 1975. Mas talvez haja outra imagem que, por seu paralelo histórico, seja ainda mais simbólica: forças afegãs cruzando a Ponte da Amizade (difícil acreditar que a ironia do nome não seja proposital), na fronteira entre o Afeganistão e o Uzbequistão, em fuga do Talibã. A foto espelha outra travessia, há 32 anos. Em 15 de fevereiro de 1989, as últimas tropas soviéticas deixavam o Afeganistão pela mesma ponte. Dali a pouco mais de dois anos, a própria União Soviética se desmantelaria. Mas há, suspeito, outra razão para guardar essa data nos livros de história: no futuro, ela será lembrada como o dia em que o império estadunidense ruiu(...)”. (Maia, Lucas de Abreu. O DIA EM QUE O IMÉRIO RUIU. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/o-dia-em-que-o-imperio-ruiu/).




Ao mesmo tempo em que os atores políticos e sociais atribuem uma derrota estratégica singular sofrida pelos estadunidenses no Afeganistão e China aparece como ator global que se posiciona no sentido de articular canais de comunicação com as novas forças dirigentes no Afeganistão ao mesmo tempo que aparece como força que já dialoga com os Talibãs muito antes da recente (re)tomada de Cabul e encaminha com as lideranças daquele movimento a pacificação dos interesses do Estado Chinês.

Parece que o pragmatismo chinês vem encontrando uma escalada de posições que contraria enormemente a fragilização do papel imperialista estadunidense.