EM NADA NOS SERVIRÁ UMA BIDENIZAÇÃO DA ESQUERDA!



Sued Carvalho, professora


Nas eleições de 2020 nos Estados Unidos, importantes elementos da esquerda, inclusive quadros históricos como Angela Davies e reformistas como Bernie Sanders, unificaram-se, abrindo mão de suas plataformas e pautas clássicas para apoiar Joe Biden contra o demônio na Terra, Donald Trump.


Tal estratégia congelou, no país, os debates sobre um sistema público universal de Saúde, fez recuar importantes movimentos como o Black Lives Matter e terminou de integrar lutas contra opressões aos marcos toleráveis pelo status quo, como, por exemplo, a graduação de mulheres cis e trans ao alto escalão das forças armadas.


Nenhum ganho real, apenas o afastamento de Donald Trump da presidência, mas pouco avanço qualitativo para a população trabalhadora do país, enquanto os trumpistas se fortalecem no subterrâneo e o próprio Trump já é pré-candidato a 2024, não sofrendo nenhuma represália por todo mal que causou.


Ao redor do mundo a eleição dos EUA tornaram-se referência e Joe Biden tornou-se uma figura na qual líderes de oposição ao redor do mundo inspiravam-se. A esquerda devia unir-se para derrotar a onda conservadora com todos os defensores da democracia em qualquer ponto do espectro político. O foco deveria ser derrotar o fascismo, o resto veríamos depois. Neste texto, para fins argumentativos, irei chamar essa tática de Bidenização, que é, em suma, trocar pautas urgentes por uma defesa difusa e abstrata da democracia e assumir que a derrota eleitoral do fascismo derrota-o em definitivo.


Nos países da América Latina até mesmo foram ressuscitadas as imagens das frentes amplas costuradas para derrotar politicamente as ditaduras militares que iniciaram na região uma era de morte e tortura. A esperança estaria, portanto, em repetirmos as Diretas Já para mantermos salvaguardada a democracia. Quem quisesse apoiar deveria juntar-se ao movimento.


Os problemas da argumentação são muitos. Eis alguns deles:


1) Concessões programáticas: Para fazer uma Frente Ampla eleitoral em defesa da “democracia” é preciso abdicar de aspectos que causem desacordo nos programas das esquerdas, dos mais básicos, como taxação de grandes fortunas aos mais polarizantes, como reforma agrária. O campo popular deixa “para depois” pautas urgentes para os trabalhadores em nome da defesa, em abstrato da democracia. Outras experiências do passado recente provaram que essa tática é ineficiente e resulta em mais derrotas do que vitórias, as próprias diretas Já, apesar de importantes para a época, resultaram na aplicação ortodoxa do Consenso de Washington nos anos 1990 e uma aplicação heterodoxa nos anos 2000. Diante do cenário econômico e social desastroso que vivenciamos, está claro que a defesa abstrata da democracia (Burguesa) não pode ser um fim em si mesma para a esquerda, principalmente quando as forças para quem fazemos concessões são apoiadoras do mesmo ideário que causa e mantém a fome e a miséria. Manter o presente estado de coisas, apenas retirando Bolsonaro e seus asseclas mais próximos, é deixar que milhões continuem na extrema-pobreza.


2) Anacronismo retórico: Não é possível considerar imitar o exemplo estadunidense e os teóricos do Norte global que defendem “fórmulas” para vencer a onda conservadora o fazem por acreditar que seus países são exemplos a serem imitados, faróis para o mundo e, no caso dos EUA, líderes do mundo livre. Seria uma idiotice imensa de nossa parte abraçar esse discurso. A esquerda brasileira não deve se bidenizar pelo simples fato de que não é estadunidense, logo não lida com a mesma correlação de forças daquele país.


Mas e a comparação com a nossa História recente? Com as Diretas Já? Nesse caminho caímos em outro buraco: O anacronismo. Na época das Diretas Já lutávamos contra uma Ditadura Militar estabelecida, era uma guerra aberta, a ideia de uma Frente Ampla era razoável para tirar os militares do poder, embora seja digna de críticas que a esquerda não tenha se esforçado para ter voz mais ativa no processo, permitindo que a democracia (Entre muitas aspas) tenha vindo como tutelada pelos miliares, que os civis passariam as décadas seguintes tentando não melindrar.


Um fato também digno de nota é que a Ditadura Militar não caiu em função da Frente Ampla, mas foi acompanhada de um importante movimento de massas, guerrilhas, militância aguerrida por parte de estudantes e desgaste internacional. O movimento Diretas Já foi um fim, anticlimático eu diria, de um processo longo de resistência popular. Ou seja, a época não é mais a mesma, a correlação de forças idem, entretanto sequer a metodologia se repete, pois o que se propõe hoje é uma frente ampla por cima, meramente eleitoreira, sem qualquer lastro no movimento popular, costurada por burocracias partidárias e elites.


Se o movimento das Diretas já havia sido conciliador e pouco ousado, o que se propõe agora é um movimento das Diretas Já castrado.


3) Exclusão dos trabalhadores: O foco em 2022 por parte de parcela importante da esquerda a leva, em última instância, a ter uma visão elitista da classe trabalhadora, como só sendo capaz de fazer política diante de uma urna eletrônica. Essa interpretação excludente do papel dos trabalhadores revela que tais organizações não possuem mais qualquer perspectiva de transformação da sociedade, optaram por apenas tentar mendigar, junto a burguesia um bocadinho, um restinho para os mais pobres.


Os trabalhadores organizados poderiam acelerar a degradação desse governo, enterra-lo de destruir sua credibilidade com mais rapidez, entretanto isso destruiria alianças que lideranças reformistas como Lula trabalharam para firmar com elementos da burguesia, legitimando-se junto à população com a nostalgia pelo boom das commodities dos anos 2000 e início dos anos 2010, porém prometendo ainda menos transformações para a classe trabalhadora, tirando de vista até mesmo a taxação de grandes fortunas.


Um prospectivo governo petista não terá condições de ser de esquerda contando com apoio estritamente institucional, acabará sendo, explicitamente, aquilo que foi de 2002 até 2016 de forma implícita, a saber, um gestor do capitalismo, cujo objetivo último é garantir os ganhos da burguesia (Como o próprio Lula diz, os banqueiros nunca ganharam tanto quanto no seu governo). Só há possibilidade de fazer as mudanças necessárias um governo que conte com uma base social mobilizada, forte e atuante.


Um Joe Biden nem aos trabalhadores da centralidade capitalista tem servido, avalie pelas bandas de cá, no capitalismo dependente. A pauta da democracia só serve aos trabalhadores acompanhada de mudanças sociais reais e de prestação de contas por parte dos fascistas no poder!


Um governo bidenizado que nem a revogação das reformas e privatizações feitas pelos governos golpistas quer fazer, em nada contribuirá qualitativamente para as conquistas dos trabalhadores.


Nós somos melhores que um Joe Biden! Não existe um "Na volta a gente compra".