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Lula já foi maior, se apequenou!

Por Peterson Pacheco, cientista social.


Ainda ontem e também hoje umas tantas pessoas muitíssimo competentes elaboraram boas análises sobre os atos contra a democracia havidos em Brasília, no dia 08JAN.

O que me parece ainda digno de reflexão é que a fala do Presidente Lula (que estava em Araraquara) foi bem distante do que se poderia esperar de alguém eleito sob a tutela de uma frente pela democracia.

Lula, na verdade, perdeu uma oportunidade de ser Estadista. Ao contrário, Lula se demonstrou despreparado e emitiu um tom arrogante e autoritário. Aqui é muito importante ser mais claro, porque a adjetivação dura sempre merece mais cuidado. Lula foi arrogante quando toma pra si duas coisas que não são exclusivamente suas: o ataque reacionário de domingo não foi contra Lula; as ações de combate ao reacionarismo não serão iniciativas exclusivas de Lula. Mas, na contramão dessas advertências, Lula falou de improviso aos jornalistas e o tom desse seu pronunciamento marcou esse duplo equívoco. Lula chamou pra si o alvo dos ataques, fez bravata sobre suas qualidades (que são muitas, mas não é esse o caso) e num arroubo quase autoritário afirmou que ele puniria quem quer que fosse, aliado ou oposicionista. Pobre Lula.


Lamentavelmente a manifestação de Lula foi muito o avesso do que parecia ser a mensagem a mais adequada.

Agora, isso que imaginei como manifestação arrogante e autoritária do presidente Lula nem é exatamente a face mais trágica das respostas do atual governo federal em face das ações golpistas do domingo.


Mais trágica foi a linha política adotada por Lula. Foi e segue ainda hoje. Por óbvio me importo com obras de arte, documentos e móveis públicos. Mas, isso que assombra imprensa e por tabela a chamada opinião pública, é algo que não é a natureza do mal que nos assola.


Quer dizer, não é o nominado vandalismo, o ataque ao patrimônio, o cerne do crime de ontem e dos muitos dias que antecederam aos eventos de ontem. A marcha reacionária e as ocupações promovidas pelos golpistas tinham uma pauta. Essa pauta é que deveria ser o fio condutor da reação democrática. Essa pauta é que deveria dar o tom das respostas institucionais.


E que pauta é essa? Intervenção Militar, desrespeito às eleições e ruptura com o ordenamento jurídico. Noutro texto podemos aprofundar cada um desses elementos, desdobrar como cada um deles representa uma ameaça às conquistas mais elementares da classe trabalhadora e da sociedade civil brasileira. Por aqui basta anunciar que há acúmulo acadêmico e político bastante consolidado na direção de que esses artefatos são basilares no convívio democrático. Gravíssimo, com o máximo respeito aos artistas desprezados pela violência dos golpistas e com a real preocupação com os patrimônios públicos e privados, é a demolição pretendida por essa frente política reacionária e antidemocrática.


A tal demolição, que não é uma pretensão para o futuro, cada movimento simbólico ou fático na direção do desmonte dos artefatos elementares da democracia representativa liberal, abre espaço para que esse campo reacionário ocupe lugares estratégicos na vida pública, no imaginário político e nas posições estratégicas da disputa pela hegemonia.


Daí que meu lamento ecoa em mim tão fundo. Talvez estivéssemos diante de uma primordial oportunidade de estabelecer uma linha distintiva entre quem faz política dentro dos marcos democráticos (ainda que essa democracia seja tutelada, insuficiente e muito injusta para os mais vulneráveis) e quem disputa os espaços públicos sob a premissa do aniquilamento da democracia e a imposição dos interesses pela via da força e da violência (simbólica e fática).


Ter deslocado o combate aos atos reacionários de 08JAN desse campo de reivindicações antidemocráticas para a esfera da rejeição ao vandalismo reduziu não apenas a gravidade dos atos reacionários, mas, principalmente, reduziu o papel de Lula.

Lula deixou de ser alguém que representa a defesa de algo que amplia o campo das forças democráticas, alguém capaz de representar um espírito político que preserva o mínimo político para uma convivência coletiva mais saudável. No lugar disso, se prestou ao papel pequeno de representar a repressão ao transtorno contra o patrimônio, ou, pior, de fazer uma fala em que confunde a pauta dos reacionários ao evocar para si o alvo dos ataques golpistas.


Durante o dia de ontem e ainda hoje, Lula e seu governo perdem as oportunidades de se mostrarem Estadistas, representantes de uma ampla aliança de correntes de forças que disputaram as eleições contra organizações que atentam, desde muito, em afronta ao mínimo democrático.


O que dirá Lula, por exemplo, quando o MST invadir e ocupar uma propriedade improdutiva? Um órgão público sequestrado pelos interesses privados? Quando houver resistência contra o banditismo dos latifundiários, grileiros, bandidos ambientais? A rigor, muitas vezes, trata-se de ocupação, invasão e dano ao patrimônio (algumas vezes público).


Na forma política da reação de Lula e do governo federal, despolitizada, restará igualar a resistência popular ao ódio reacionário. Uma pena.

Curiosamente, tal como acorreu nos Estados Unidos, as ações de 08JAN enfraquecem as organizações reacionárias, mas não as supera.

Mas, uma pena que Lula sai menor desse imbróglio. Logo ele, liderança internacional das mais expressivas, perdeu uma gigante oportunidade de se mostrar um estadista, uma liderança ampla, alguém que compreende seu papel e tem clareza dos bens políticos que deveriam fazer parte da sua tutela. Lula segue imenso, líder, importante. Tomara que o tempo não diminua demais Lula.


Seja como for, uma lição importante, é que os caudilhos e mitos não nos interessam. Quando Lula falhar, como falhou, as forças democráticas precisam estar firmes para o enfrentamento político necessário. Lula é grande, mas a nossa capacidade de lutar pelo bem comum é mais imensa ainda.

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