Por que os discursos das “esquerdas” não atingem as massas populares?


Classe trabalhadora. (FOTO/ Reprodução/ Carta Maior).
Classe trabalhadora. (FOTO/ Reprodução/ Carta Maior).

Por Nicolau Neto, professor


Essa foi a provocação que fiz ontem a tarde em rede social. A indagação veio atrelada a outras e certamente teria muitas a se fazer, como por exemplo: por que continuam a perder espaços para a direta e a extrema direita?


Sem ter a pretensão de encerrar o assunto, mas visando principalmente trazer outros e outras internautas para o debate, apontei alguns caminhos que poderiam ser trilhados ou não. Que poderiam ainda ser melhorados.


Destaquei pontos que já havia trazidos para a discussão há alguns anos. A direita ganha e a extrema direta ganha e vão continuar ganhando por dois motivos básicos: 1 - A esquerda de gabinete permanece inerte e não dialoga com as massas; 2 - a esquerda que não é de gabinete e tenta fazer esse diálogo encontra desafios, sendo o principal deles a linguagem utilizada. No campo mais educacional: falta didática. Outro dia assisti a uma live do Deputado Glauber Braga (Psol – RJ). Ele fala bem, diz realmente o que se passa no país. Mas penso que sua linguagem não é entendida pela senhora e pelo senhor do campo; pelos jovens que por muitos motivos não tiveram acesso à escola; pelos pedreiros e empregadas e empregados domésticos, etc.


Enquanto a esquerda não substituir palavras como neoliberalismo, retrógrados, conservadores, neofascistas por outras que estejam ao alcance dessa parcela da sociedade a direita e a extrema direita continuarão dominando os espaços de poder.


Para além disso, é interessante é disputar os meios de comunicação. Não que se deva ocupar os tradicionais (se for possível, tudo bem), mas de construir mídias alternativas de forma que essas resistam as velhas práticas de comunicação.


O professor universitário e mentor do Intelectual Orgânico, Darlan Reis Jr., concordou inicialmente. Mas frisou ter questões mais centrais do que a linguagem. “Acho que em parte você tem razão. Porém existe o controle dos meios de produção, dos meios de comunicação. Além de todas as religiões serem pró-sistema. Por fim, se a questão fosse de linguagem como o fator decisivo, o sistema já teria sido superado. Tem questões mais centrais do que essa, penso eu”, escreveu.


Ao falar de dificuldades encontradas na questão da manifestação, Darlan pontuou a repressão, os assassinatos, etc. Em que pese a didática (ou sua ausência) que frisei, ele foi taxativo. “Concordo sobre o uso das palavras. Podem ser usadas outras mesmo. E tem pessoas que usam. Mas lembre-se, o sistema tem força, eles estão 24 horas no ar: na mídia, mas escolas, nas igrejas, nas empresas. Isso tudo facilita a visão de mundo burguesa, facilita para a Direita. E por isso eles odeiam países como Cuba, onde a lógica é outra. Inclusive tem a Esquerda que odeia também. E se favorece disso para ser hegemônica.”


Darlan pontuou também “os problemas organizativos” da esquerda socialista, “radical” ao frisar que existe a fraqueza desse setor. Já no que se refere a “esquerda de gabinete”, o professor não poupou críticas. “Ela vive disso, de eleições, de procurar o caminho do ‘meio’, de negar a revolução, de se dizer não sectária quando é só pelega mesmo, de fazer das eleições um fim em si mesmo, de criar ‘celebridades lacradoras’”.