QUANTO MAIS AMPLA A FRENTE, MAIS AMPLA A DECEPÇÃO


Sued Carvalho, professora




Alguns setores da esquerda, diante do sucesso das manifestações do dia 29 de Maio e 19 de junho vem afirmando que “Para derrotar o Bolsonaro” tem que “Ser feita uma frente MUITO ampla”, incluindo aqueles movimentos que “se arrependeram” de apoiar Bolsonaro. Eis ai o A, B, C do fracasso!


Primeiramente, os setores da Direita que se “arrependeram” de apoiar Bolsonaro não o fazem por discordar do projeto neoliberal que seu governo defende, responsável por milhões de desempregados e pelo aumento da insegurança alimentar. Em suma, o MBL se desvinculou do Bolsonaro, mas não do neoliberalismo, continua a defender privatizações, medidas de austeridade, desmonte da Universidade Pública e do SUS. Por que a esquerda deveria abrir espaço para essa escória? Qual a diferença, na prática, entre Bolsonaro e esses lacaios do imperialismo? MBL, Partidos do chamado centrão, etc. pertencem ao mesmo grupo que Bolsonaro, apenas estão, momentaneamente, em alas distintas, defendendo os interesses dos mesmos grupos, apenas de diferentes formas.


Segundo, abrir para esses setores da direita implicaria esvaziar qualitativamente nossas pautas. As manifestações não são apenas pelo Fora Bolsonaro, são pela vacina no braço, por comida no prato e contra as reformas neoliberais. O que organizações que apoiaram, ampla e de forma irrestrita, as medidas de austeridade que tiraram a comida do prato dos trabalhadores estariam fazendo em um movimento como esse? Ora, é mais do que óbvio que isso seria um contrassenso.


Terceiro, isso dividiria ainda mais de forma gratuita as forças que constroem os atos. Além das discordâncias programáticas que são de se esperar entre um partido e outro, acrescentaríamos ainda mais tensão ao acolher elementos que são abertamente contra os trabalhadores na pauta, apenas por serem contra o Bolsonaro por motivos oportunistas. Seria interessante não aumentar ainda mais a temperatura, sob o risco de sentenciar o movimento à morte.


Quarto, a burguesia não é homogênea, há disputas nessa classe sobre qual será a melhor forma de exploração da classe trabalhadora e esse é, basicamente, o cerne da discordância da direita liberal com Bolsonaro. Aproximar-se desse grupo é transformar o movimento de esquerda em linha auxiliar de uma parcela da burguesia nacional. MBL não discorda de Bolsonaro sobre questões essenciais, discorda apenas em forma, porém o que queremos é derrotar a essência que os une, a saber, o projeto neoliberal.


Quinto, o fascismo é apenas a forma extremada do liberalismo. Em tempos de crise, quanto a burguesia precisa retirar direitos dos trabalhadores e implementar reformas impopulares para garantir que sua taxa de lucro permaneça intacta, precisa de um autoritarismo cada vez mais intenso e explícito para calar lideranças de esquerda, Sindicatos e movimentos sociais. O fascismo é uma ferramenta da burguesia e da direita, à qual eles lançam mão ou afastam-se dependendo da conjuntura.


Portanto, é vital que tenhamos como ponto pacífico que não é possível contar com qualquer ala que seja da direita, que estamos em um período de crise, em que a Ditadura da burguesia abandona seu verniz “democrático”. Seria um erro acreditar que podemos acolher qualquer ala do grupo que deseja destruir os direitos dos trabalhadores. Quanto mais ampla a frente, mais ampla será a decepção! Que não cometamos o crime de transformar o movimento pelo fora Bolsonaro em linha auxiliar de um ilusório neoliberalismo moderado.


Digamos, em algo e bom som, para qualquer propositor da direita: NÃO PASSARÃO!