Restos de comida, a fome e a classe dominante escravista do Brasil

Por Darlan Reis Jr., historiador



Pintura de Jean-Baptiste Debret - "Família Brasileira no Rio de Janeiro"


O ministro da Economia do governo fascista de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, sugeriu no último dia 17 de junho, que os pobres e "mendigos" sejam alimentados com as sobras de comidas dos ricos e da classe média. Isso durante encontro com representantes da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS):


“O prato de um classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui, nós fazemos almoços onde às vezes há uma sobra enorme. Isso vai até o final, que é a refeição da classe média alta, até lá há excessos”. (Paulo Guedes)

Qual é a origem dessa visão degradante e ofensiva sobre os pobres, os miseráveis? A mesma classe que já pensou em distribuir "ração" ( Site do G1 em 12/10/2017: "Doria dará alimento granulado feito a partir de itens perto do vencimento a famílias carentes" ), ou até alterar a data de vencimento da validade dos alimentos ( Site CNN Brasil em 17/06/2021: "Governo pode flexibilizar prazo de validade de alimentos - O ministro da Economia, Paulo Guedes, e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, defenderam a medida no 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento" ).


Qual é a origem dessas posições políticas tão degradantes, capazes de gerar não apenas indignação, mas um sentimento de repulsa, genuíno, sincero e pertinente, de quem toma conhecimento do que foi proferido? A origem está no escravismo brasileiro, que durante quase 400 anos, transformou em propriedade privada, milhões de seres humanos, fez da atividade do trabalho, aviltamento e morte, além de ter gestado uma das piores classes dominantes do planeta, a burguesia brasileira.


Vejamos. No período colonial, a escravização de seres humanos, era defendida pelos escravistas com os seguintes "argumentos": desígnio de Deus, salvar as almas dos escravizados, benéfica para os mesmos. Isso permitiu à classe dominante escravizar sem problema de consciência.


No século XIX, com as revoluções burguesas, com o Liberalismo, com o advento do Capitalismo, a escravidão continuou a ser justificada, mas naquele momento, com outros "argumentos". Sim, amigos e amigas, o Liberalismo foi cúmplice do escravismo, tanto quanto o Conservadorismo. Mesmo que admitissem que a escravidão não era desígnio divino, e que corrompia, "podendo" causar males e "vícios", os escravistas (liberais ou conservadores), não a defendiam apenas pelo prisma do "direito de propriedade". Diziam também que: - os negros não seriam capazes de sobreviver em liberdade; - que a economia não poderia funcionar sem escravos; - a abolição causaria a ruína do país.


O pensamento escravista era algo arraigado, difundido, naturalizado e justificado. A escravidão foi condição indispensável na formação social brasileira, no aspecto ideológico sobre o trabalho: visto como aviltante, organizado em termos de espoliação. Para as classes senhoriais havia o “ideal de nobreza”: não trabalhar, ter bravura e comando, família patriarcal celebrada, generosidade, devoção religiosa, propriedades fundiárias, “armas e política”.



“O escravo não é só um agente de trabalho e de produção. É preciso desconsiderar o coração humano para assim pensar; o escravo é um objeto de luxo, um meio de satisfazer certas vaidades e certos vícios da natureza do homem. Assim como a propriedade territorial tem certos atrativos, assim também o escravo fornece ao senhor um certo gozo de domínio e império, que está no coração humano, não sabemos se bem ou mal”. (Luiz Peixoto de Lacerda Werneck, fazendeiro em Vassouras, província do Rio de Janeiro).

No Brasil capitalista, a classe dominante prega que "a economia não pode parar", ou "daremos as sobras para os pobres", ou que o "empreendedorismo é a origem da riqueza" e outras palavras de ordem preguiçosas mas repetidas milhões de vezes pela mídia empresarial e pelo senso comum.


Não é de se estranhar, em um país onde os piores crimes foram jogados para debaixo do tapete (extermínio dos povos nativos, escravidão, massacres como em Palmares ou na Guerra de Canudos, ditaduras etc.), que a classe dominante atual não tenha vergonha de ser tão explícita, afinal, a dominação não é apenas econômica, mas também é um estilo de vida: a gestação de identidades e valores socialmente compartilhados. "Estilo" que manifesta-se na adesão à práticas políticas, administrativas e públicas.


Não é à toa que os discursos não negacionistas na pandemia, mas que pregam o neoliberalismo, insistem apenas em atitudes individualistas (uso de máscara, distanciamento social, álcool em gel, lavar as mãos), assim como faz em relação a outros problemas brasileiros. O Liberalismo anda quase sempre de mãos dadas com o Fascismo, e suas "soluções" são repugnantes.


Termino este texto com algumas referências iniciais de leitura, para quem quiser se aprofundar na história ignóbil da classe dominante brasileira.


Dicas de leitura:


- História da Burguesia Brasileira. De Nelson Werneck Sodré.

- Da Monarquia à República. De Emília Viotti da Costa.

- O Tempo Saquarema. De Ilmar Rohloff de Mattos.

- Nostalgia Imperial. De Ricardo Salles.