REVOLUÇÃO MORTA NO PARTO FORTALECE EXTREMA-DIREITA NO CHILE



Sued Carvalho, professora


Após meses de otimismo em relação a situação política do Chile, que iniciou uma nova assembleia nacional constituinte para enterrar a constituição de Pinochet, somos surpreendidos pela notícia de que a extrema-direita tem liderança no processo eleitoral e que seu candidato, na frente das intenções de voto, foi para o segundo turno.


Como um país que foi balançado pela revolta popular meses atrás, que conquistou importantes vitórias para os trabalhadores, é agora ameaçado por um possível governo fascista? O El País argumenta, em matéria chamada Medo das Revoltas deu asas a extrema-direita no Chile, que a forma como a nova constituição foi alcançada fortaleceu a reação.


Diante dessa interpretação do jornal espanhol e do fato concreto do avanço da extrema-direita no nosso vizinho do Oeste, o que devemos pensar? Que quando saímos dos meios meramente institucionais acabamos, necessariamente, dando argumentos ao inimigo e, portanto, deveríamos agir dentro dos marcos estritos?


Uma resposta positiva a estas perguntas não leva em conta a própria História recente do Chile. Após a queda da ditadura dos Chicago boys neoliberais encabeçados por Pinochet no país, manteve-se a constituição do arbítrio, que mantinha todos os serviços públicos privatizados, assim como fazia idosos preferirem o suicídio à velhice devido a falta de um sistema de previdência público. Uma oposição, no congresso, apostava em medidas compensatórias pouco efetivas e procurava acreditar na legalidade.


Porém a mudança nunca veio de dentro. Após mais de 30 anos de oposição legal ao neoliberalismo, pouco foi conquistado para os trabalhadores e povos originários. Sobrou para a juventude trabalhadora a revolta, que explodiu em 2019 e entrou em 2020. Pedia-se mais justiça social, o fim do entulho autoritário e mais direitos, como educação e saúde pública figurando entre os principais. A revolta foi uma necessidade política e histórica.


Os jovens, trabalhadores e partidos de esquerda que tocaram a luta, entretanto, deixam o bebê morrer no parto e não levaram o processo de mudanças radicais adiante, escolheram a conciliação com as forças reacionárias em uma nova constituinte ampla. A burguesia do país, detentora dos meios de produção, dos serviços e dos meios de comunicação precisava, então, garantir que a nova Constituição não tocasse tão profundamente em seus direitos e, quando a burguesia sente-se ameaçada a quem ela costuma recorrer? Ao fascismo, representado pelo candidato José Antonio Kast.


A política é uma guerra de posições, algo que a extrema-direita tem entendido e aplicado melhor do que as esquerdas dos anos 1990 para cá. Faz-se aproximações sucessivas para esticar os limites do politicamente aceitável, conquista-se postos chaves no poder político de forma a garantir base de governabilidade e, principalmente, não se abandonam posições conquistadas, ao contrário, devem ser fortificadas. A esquerda tem se negado a discutir seriamente um projeto de poder, tem recuado de angariar adeptos para um processo de transformações mais longo, algo que a direita e a extrema-direita não escondem e fazem ativamente.


Ao baixar a guarda e abdicar da mobilização social nas ruas como base de apoio a esquerda abandonou posições, que a extrema-direita e a burguesia, hegemônica rapidamente recuperou, colocando em xeque todas as conquistas recentes.


Entretanto, a polarização, o fato de a sociedade ter se dividido sobre temas centrais e profundos é algo positivo, cabe agora à esquerda chilena não apostar em formulas fáceis de tornar difusas as pautas e falar em harmonia, mas sim aprofundar o debate, tornando as interpretações progressistas hegemônicas.


Se a polarização política é um cabo de guerra, a esquerda deve focar apenas em colocar mais força para vencer o oponente. A política não cheira a flores, é vencer ou perder.