"Sinto falta da minha cidade e sinto falta do meu país". A fala de uma mulher líbia.



Sued Carvalho, professora.


A frase que dá título a esse texto foi pronunciada por Yusrr Al Shamak, uma jovem universitária moradora da cidade de Sirte, na Líbia, entrevistada deste texto, que teve seu destino totalmente transformado pela primavera árabe, uma série de revoltas que derrubaram regimes que, segundo a propaganda estadunidense, eram antidemocráticos e ditatoriais. O Norte da África foi balançado por essas revoltas, comemoradas, na época, como inovadoras, pois agora os protagonistas eram “a massa”, sem partidos ou lideranças personalistas e as mobilizações eram feitas através das redes sociais, que se popularizavam aceleradamente no começo da década de 2010.


A esquerda pós-comunista, que evita definições fechadas (Não são comunistas, são anticapitalistas, seja lá o que isso signifique dito desse jeito) e é afeita a qualquer coisa que parece uma inovação, comemorou efusivamente. 2011 foi um ano de comemoração e de vitória, o “povo” havia derrubado supostos ditadores sanguinários e, agora, seria possível instaurar democracias populares. O entusiasmo, como tudo neste mundo conectado, foi consumido rapidamente e logo caiu no ostracismo e as graduais revelações de envolvimento e influência estadunidense destes processos não chamaram tanta atenção.



Muammar Al-Gaddafi, representante do socialismo islâmico progressista e líder simbólico da Jamahirya Socialista da Líbia.



A Líbia é um caso emblemático, após uma revolução pacífica em 1969 chegou ao poder o coronel Muammar Al-Gaddafi, que iniciou um processo de transição ao socialismo que se concretizaria em 1979, com a fundação da Grande Jamahiriya Árabe Socialista da Líbia. Não era um regime político de um socialismo marxista, baseado na luta de classes, porém as conquistas para a população líbia foram imensos: A Jamahiriya (Literalmente Estado de massas, em árabe) respeitaria as tribos e as relações familiares, não tentaria impor um modelo familiar “ocidental” à là jovens turcos, assim como forneceria uma educação radicalmente igualitária e garantiria participação da população em geral às riquezas produzidas nacionalmente, todos os cidadãos passariam a ganhar parte do montante arrecadado pela exportação de petróleo, ganhariam uma casa após o casamento, assim como lua de mel paga pelo Estado, direito a saúde universal e o governo investiria pesadamente no desenvolvimento da agricultura no deserto, bioma que marca a maior parte da paisagem do país.


De 1979 a 2010 a Grande Jamahiriya Árabe Socialista da Líbia tornou-se a nação africana com maior IDH no continente. O problema? Os meios de produção eram radicalmente nacionalizados e Gaddafi representava, junto de Bashar Al-Assad, uma das últimas forças anti-imperialistas progressistas, seguindo a tradição de Gamal Abdel Nasser, ativas no mundo árabe (Que compreende o Norte de África, chamada apropriadamente de África islâmica). Estas não são qualidades admiradas pela burguesia internacional, que não pestaneja em usar sua principal arma, o Estado nacional dos Estados Unidos da América, para sabotar, sufocar e esmagar qualquer experiência política que vá na contramão da divisão internacional do trabalho.


A derradeira ordem que deu o tiro de misericórdia no regime socialista islâmico de Gaddafi, lançando a Líbia em uma sangrenta guerra civil, foi dada por Brack Obama enquanto estava no Brasil, como o mesmo declara em sua recém-publicada autobiografia que, em um mundo ideal, seria considerada a uma confissão de um genocida. Diante disso eu, uma marxista-leninista brasileira, tomada por solidariedade proletária, conversei com minha amiga líbia, Yusrr, sobre a possibilidade de uma entrevista breve sobre como a primavera árabe trouxe, para os trabalhadores líbios, não flores, mas bombas.



Sued: É um prazer conversar contigo, antes de começarmos poderia se apresentar aos leitores brasileiros?

Yusrr: Meu nome é Yussr. Eu tinha apenas 13 anos quando a Líbia caiu, morava na cidade de Sabha, no sul do país, que é a capital do sul da Líbia.



Sirte, cidade natal de Gaddafi e lar da Yusrr Al-Shamak, atualmente.



Sued: Em 2011 ocorreu o golpe que acabou com a Grande Jamahiriya Árabe Socialista da Líbia. O que você lembra daquela época?

Yusrr: Lembro que estava na escola e saíamos cedo, depois voltei para casa e assisiti tudo na televsião Líbia daquela época. Não parecia grande coisa, nós também não estávamos interessados, a nossa vida era calma e normal.


Sued: Você mora em Sirte, a cidade natal do Coronel Muammar al-Gaddafi. Como é morar na cidade hoje? Como os moradores locais se lembram de seu filho mais famoso?

Yusrr: Sim, eu moro em Sirte agora, minha segunda cidade, e minha mãe também é da tribo Gaddafi. Os sentimentos dos cidadãos tornaram-se duros e tristes, toda a Líbia é assim, mas especialmente em Sirte, quase todas as casas tem um desaparecido ou um mártir. O golpe foi grande aqui, a OTAN a destruiu completamente e o ISIS terminou o trabalho. Agora está quase normal e a cidade ainda está se recuperando. A bandeira verde ainda está hasteada, apesar da repressão aos cidadãos, lembro que eles saíam às ruas com bandeiras verdes quando o ISIS estava aqui, isso era um desafio, pois se eles eram fortes, a cidade de Gaddafi também seria, isso está no nosso sangue e na nossa alma.



Guerrilheiros Wahabistas do ISIS ocupam Sirte, foto de 2015.



Sued: Há uma resistência verde? Qual sua força?

Yusrr: Sim, existe, mas eles se dispersaram, seja entre suas tribos ou no exército de Khalifa Haftar, esses últimos querem vingança contra a OTAN e restaurar a soberania da Líbia.



Soldado da resistência verde. É chamada assim em referência a bandeira da Jamahiriya Socialista, seu hasteamento é proibido e reprimido na Líbia atual, porém os apoiadores do socialismo verde o fazem como forma de desafio.


Sued: Você é uma estudante universitária, correto? Como é estar na Universidade após a queda do socialismo verde?

Yusrr: A vida universitária aqui é muito estranha e às vezes perigosa. Perdi um ano inteiro por causa da guerra e outro ano porque minha saúde psicológica não era boa. Lembro-me de quando estava estudando na Universidade de Sebha, no sul da Líbia, antes de me mudar para a Universidade de Sirte, fiquei a um fio de cabelo da morte, eu tinha saído pela porta e fui até o carro no mesmo minuto em que dois homens entraram e atiraram a esmo no campus, lembro que uma menina morreu, outra garota foi baleada. Eu estaria morta ou ferida 5 segundos antes, eu estava ao lado delas.

Eu tive que deixar a cidade por causa deste incidente e outros. E também porque o sul da Líbia se tornou um lugar para gangues, ISIS e extremistas de direita africanos.

Sinto falta da minha cidade e sinto falta do meu país antes de 2011.


Sued: Não recebemos muitas informações sobre a Líbia aqui no Brasil, entretanto chegam alguns boatos de que a escravidão teria voltado a Líbia? Isso é verdade?

Yusrr: Não existe tal coisa; Primeiro, porque a Líbia é um país muçulmano, e isso é proibido, não permitido. Em segundo lugar, existem milícias notórias causando estragos no solo, matando e destruindo. O líbio acorda todos os dias e encontra um corpo perto de um depósito de lixo, ou um irmão ou parente que foi sequestrado. Isso é uma mentira sem base na verdade.

Ai mostram vídeos, porém não são muito confiáveis, pois são vídeos das milícias. E eu não me importo se o mundo acredita em nós ou não, quem é este mundo? São todos que vieram em 2011 e bombardearam meu país e causaram isso. Eles deveriam ter vergonha até de pronunciar o nome da Líbia, e nós também não precisamos de sua falsa humanidade aqui, não precisamos aprender, não precisamos de sua democracia também, já sabemos que ela significa sangue.


Sued: Que mensagem você direcionaria para os brasileiros que acreditam que a primavera árabe foi um processo de liberação?

Yusrr: Tenho muitos amigos do Brasil, inclusive você. Acho que quem apóia o que aconteceu na chamada Primavera Árabe é um participante desse crime ou que ainda está enganando na chamada democracia americana ou ocidental, e acho que os brasileiros são contra isso e contra toda a farsa do norte americano, e se alguns ainda acreditam nisso, eu digo a eles: Abram bem os olhos para o seu país primeiro, depois para seus governantes, então olhem para nós, e eles entenderão o que quero dizer.

Você não ficará bem se não estiver no controle de seu país, e isso é o que aconteceu conosco porque éramos livres em cada grão de areia em meu país. Éramos uma grande força livre, por isso eles tinham que nos destruir, e fizeram isso.

E a última coisa que gostaria de dizer, desejo paz para você e seu país.