Transgeneridade é uma questão de classe (e de raça)

Sued Carvalho, professora



Adolf Hitler, abominável ditador Nazista, deve olhar, das profundezas do inferno, com grande inveja para o Brasil, pois nas terras tupiniquins 75% dos homicídios cometidos são contra jovens negros (Dados do Fórum brasileiro de segurança), assim como é assassinada uma pessoa LGBT a cada dezesseis horas (Diretoria de promoção dos Direitos LGBT), um verdadeiro genocídio. Um dado é, especialmente, alarmante, o nosso país é medalha de ouro em tiro ao alvo... Contra pessoas transexuais, sendo o que mais mata estas pessoas no mundo. Só em 2019 foram 124 pessoas mortas por serem transexuais ou transgêneros, em 80% dos casos houveram requintes de crueldade, constituindo crime de ódio e apenas 8% dos criminosos responsáveis por tais mortes foram presos.


Em suma, o Brasil é o pior lugar do mundo para pessoas transexuais e transgêneros, aqui a expectativa de vida de uma pessoa que se enquadra neste grupo é de 35 anos, os dados foram dados pelo Núcleo de atendimento à população transgênero no Hospital das Clínicas de São Paulo. Porém, qual o perfil da (o) jovem transexual que sofre estas violências? Filha de família trabalhadora, obrigada à prostituição quando expulsa de casa, a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA) descreve o perfil: “Entre o total de vítimas, 80% eram negras e 97,7% do gênero feminino.” Ou seja, mulheres trans trabalhadoras e, majoritariamente, negras. Sofrem por serem pobres, negras e por serem entendidas como “imitações de mulheres”.


As mulheres trans trabalhadoras, entretanto, não sofrem apenas violência física, sofrem também violência subjetiva. Analisemos o relato de Valéria Rodrigues, que dirige, no Rio de Janeiro, uma ONG que protege mulheres transexuais resgatadas da prostituição, sua fala carrega a identificação com centenas de outras mulheres trans:


"Na primeira vez em que te negam um emprego, você se chateia e fala que foi só hoje. Na segunda vez, você entra em depressão. Na terceira, você pensa em algo universal: faz o primeiro programa. Mata sua fome. É a chance de colocar uma prótese parcelada. O problema é que quem te emprega como prostituta cobra R$ 20 mil por isso. E você fica trabalhando para pagar e permanece na mesma, enquanto essa pessoa lucra".


Vemos, no relato de Valéria, um exemplo da natureza multifacetada e dialética da opressão sofrida pela mulher trans trabalhadora, via de regra negra: Lhe é negado emprego por sua condição, é obrigada, para não morrer de fome, a se prostituir, mas não para por ai, é levada a realizar sua transição de maneira perigosa, com próteses baratas, tomando hormônios sem acompanhamento médico e psicológico, diferente das mulheres trans de famílias ricas normalmente conseguem fazer transições de forma mais saudável e recebendo o tratamento ideal.


Além da extrema desigualdade de tratamento, enfrentam a dura realidade da prostituição, que objetifica o corpo, transformando-o ele em produto. Segundo dados também da ANTRA, 95% das transexuais e transgêneros são obrigadas a vender-se, um modo de vida em que, segundo Patrícia, de apenas dezoito anos, prostituindo-se no centro de São Paulo, “A gente nunca sabe se vai voltar viva”. Alguns da esquerda liberal, vestindo-se de marxistas, afirmam que ao prostituir-se, as mulheres trans estariam “vendendo sua força de trabalho.”, isso é totalmente errôneo, pois um trabalhador ou trabalhadora, ao trabalhar, não vende seu corpo, mas suas potencialidades de execução de um trabalho, a força de trabalho “não é o corpo” do proletário ou proletária, mas o seu potencial de produzir valor.


Estes mesmos esquerdistas liberais chegam a cúmulo de afirmar que a regulamentação da prostituição seria a solução para este problema, pois permitiria a pessoas trans terem um meio de vida sem se arriscarem tanto. Basicamente, o que querem dizer? “Bem, a transfobia existe mesmo, mas não faremos nada contra ela, porém para dizer que não fizemos nada, vamos, pelo menos, legalizar a desumanização dessas pessoas.”. Desumanização? Sim, desumanização, a pessoa prostituída é submetida a um vazio afetivo, em que seu corpo torna-se, ele mesmo, objeto de prazer brutalizado, situação esta agravada quando a situação de prostituição se dá por desespero. A regulamentação da prostituição não resolverá problema algum, é um remendo mal feito, as pessoas trans continuarão sofrendo com desigualdade de acesso ao trabalho e a tratamento de transição ideal.


Nos primeiros parágrafos deste texto argumentei que a questão da transgeneridade e transsexualidade não é apenas de gênero, mas de classe, devido a profunda desigualdade de acesso a trabalho e a tratamentos médicos, e de raça, por a maioria das pessoas trans prostituídas e mortas serem negras (Logo também por a maioria esmagadora das pessoas negras serem classe trabalhadora e pobre no Brasil). Então, é impossível entender e resolver essa questão se esta não for entendida de forma dialética e relacional, atomizando a categoria de raça da de gênero e/ou colocando-as fora da classe perder-se-á toda a complexidade do problema.


A longa e árdua batalha contra a LGBTfobia e, especialmente, contra a transfobia, passa, primeiro, pela luta pela sobrevivência destas pessoas à curto prazo, com acesso a educação, trabalho saúde, transição segura e gratuita. Porém, apesar de isso resolver problemas pontuais e inadiáveis, é preciso uma resolução em longo prazo, que impeça retrocessos tão comuns à democracia burguesa, é necessária a superação da exploração de classe, que por se dar em uma sociedade racista, machista e LGBTfóbica, acaba por excluir, diminuir e desvalorizar determinados grupos da classe trabalhadora, bem como a construção de uma educação que forme integralmente a pessoa (Emocional, cognitivamente), algo que só é possível em um mundo que não sejam as “tendências de mercado” que mandem e um sistema de saúde universalmente público e humanizado, que respeite a pessoa em suas particularidades. É impossível resolver plenamente e irremediavelmente o problema das pessoas transexuais e transgêneros sem a construção de um poder popular em que estas sejam partes ativas e constituintes.

Concluindo, é, no mínimo, muito difícil ter a dimensão do problema das mulheres e homens transexuais (Principalmente mulheres) colocando-as sob a ótima apenas do gênero. Esta complexa contradição só pode ser plenamente entendida sobre o tripé classe, gênero e raça, nenhuma destas questões pode ser apreendida ou solucionada isoladamente.

Texto pensado sobre as seguintes fontes:

CÂNDIDO, Marcos. Prostituição de mulheres trans: mortes e desaparecimentos em esquema em SP, disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/01/mulheres-trans-prostituiem-em-esquema-que-envolve-mortes-e-desaparecimentos.htm, acesso em 03/07/202.

SUDRÉ, Lu. Em 2019, 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/01/29/em-2019-124-pessoas-trans-foram-assassinadas-no-brasil, acesso em 01/07/2020.

THOMAZ, Danilo. Reduzida por homicídios, a expectativa de vida de um transexual no Brasil é de apenas 35 anos. Disponível em: https://epoca.globo.com/brasil/noticia/2018/01/reduzida-por-homicidios-expectativa-de-vida-de-um-transexual-no-brasil-e-de-apenas-35-anos.html. Acesso em 06/07/2020.

Brasil, América Latina.