O imperialismo é um fato
- Darlan Reis

- 30 de ago.
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Por Darlan Reis, historiador.
Diante das agressões explícitas promovidas pelo atual governo dos Estados Unidos da América em várias partes do mundo, a expressão "imperialismo" voltou a ser utilizada. Inclusive por políticos considerados de "Centro" no espectro político brasileiro, assim como por parte da mídia empresarial burguesa. Mesmo que parte do campo político, que (ainda) é reconhecido como sendo de Esquerda, há tempos tenha abandonado as análises que incluem a categoria imperialismo, é fato inegável de que a expressão tenha chamado a atenção das pessoas nos últimos meses.

Mas, o que é o imperialismo?
Para entendermos o fenômeno imperialista, mesmo que de uma forma inicial, é preciso situá-lo historicamente, visto que a expressão dá sentido à outras experiências históricas diferentes do atual imperialismo. Existem várias diferenças entre o "imperialismo" antes do capitalismo e o imperialismo no sistema capitalista. Segundo a historiadora marxista Ellen Wood, em seu livro "O império do Capital", o Império Romano foi o primeiro "império colonial" que deu um significado à expressão, tal como passamos a entender essa palavra.

Wood apresenta outros exemplos históricos, como o do Império Chinês (século III antes da nossa era), que apresentava um padrão diferente - um estado burocrático centralizado, hierarquia descendente do monarca até os distritos governamentais, extração do excedente nas aldeias camponesas subjugadas. O que também ocorreu no Egito, ou no Império Inca, em temporalidades diferentes.
Roma, durante o período republicano (509 a.C. a 27 a.C) praticou a expansão territorial com tomada de terras, mobilizando e criando aristocracias proprietárias nos territórios dominados, como instrumento de dominação imperialista, imposição de sua autoridade e exigência da obediência. Durante o regime político conhecido como Império (iniciado com Otávio Augusto), a política imperialista consolidou-se: o camponês romano, base do expansionismo militar era duplamente explorado - seja como soldado, seja como gerador de renda. Além disso, os camponeses dos territórios submetidos geravam excedentes para a classe senhorial e para o Estado, e os escravos eram fundamentais na extração da renda do trabalho. Como é conhecido, no decorrer deste processo, os camponeses romanos em grande parte foram expropriados e tornaram-se "proletários".
A classe senhorial apropriava-se da riqueza das rendas imperiais e das terras, implantava o seu Direito, a sua soberania, espalhava magistrados, ideologia, e a estrutura de redes de estradas, força militar e o escravismo enquanto formação social na Antiguidade europeia. Vários problemas levaram à crise do escravismo/imperialismo antigo, tais como as derrotas militares, as revoltas dos povos e dos escravizados, dentre outros.

O imperialismo nas formações sociais capitalistas adquire outros sentidos. O mais conhecido, explicado por Vladimir Lênin, é de que o imperialismo refere-se ao processo de acumulação capitalista em sua "fase" monopolista. Dentre suas características destacam-se a exportação de capitais dos países centrais para os países periféricos e imposição de "áreas de influência" - ideológicas e também políticas sobre algumas áreas, ou seja, de um novo colonialismo. Um exemplo foi o terror da colonização europeia sobre a Ásia e a África a partir de 1870, com a criação de colônias. Outro exemplo é a influência ideológica e cultural sobre países formalmente independentes.
O que Lênin não vivenciou, pois faleceu em 1924, foi o surgimento de um imperialismo pós Segunda Guerra Mundial, com a emergência de uma superpotência capitalista, os Estados Unidos da América. Essa superpotência criou um sistema institucional, que mesmo sendo denominado como "multilateral" por ela própria e seus aliados, na prática traduz-se na imposição da política dos EUA. Citamos como exemplos: a criação da OTAN (1949), o Acordo de Breton Woods que criou o FMI e o Banco Mundial (1944), aparatos da hegemonia imperialista estadunidense.
Além disso, os EUA criaram mais de 750 bases militares em diversos países do mundo e ainda mantém vários territórios não incorporados e organizados como Porto Rico e Guam. Não adentraremos na questão de uma indústria cultural que difunde e financia pelo mundo afora, a ideologia de submissão ao imperialismo, mas é notória a predominância da mesma. Se o colonialismo clássico era estruturado na exploração e pilhagem, o imperialismo busca a hegemonia para manter a dominação e as ameaças aos países periféricos do mundo.
Existem divisões políticas tanto internas nos EUA (Democratas e Republicanos), quanto externas no campo imperialista, que não é composto apenas pelos EUA. Essa discussão será abordada em outro texto.


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