A Esquerda Marxista deve ser vanguarda na luta contra o obscurantismo


Sued Carvalho, professora




Em um artigo publicado por mim, na semana passada, discuti sobre como o único grupo que tem se beneficiado plenamente do desenvolvimento tecnológico é a burguesia, enquanto classe. A diferença entre o acesso aos bens tecnológicos típicos da quarta revolução industrial dos trabalhadores e burguesia é cada vez mais gritante. Porém, não apenas, a forma como a repressão tem se informatizado é digna de livros de ficção científica dos anos sessenta. É quase impossível fugir ao controle, tudo que falamos, somos e gostamos é cuidadosamente catalogado com o objetivo de ser usado como mercadoria ou para fins de perseguição política. Tendo essa problemática em mente, como é possível fazer frente a isso e, principalmente, pensar em uma sociedade onde a tecnologia não se torne uma ferramenta de repressão?


A contradição é inerente à sociedade capitalista e, apesar de sermos mais e mais dependentes das inovações tecnológicas fruto do fazer científico, aumenta o poder de Igrejas evangélicas neopentecostais, assim como as formas religiosas chamadas genericamente de new age. Para os “jovens místicos”, por exemplo, a ciência é mera técnica, incapaz de dar ao ser humano um senso de completude, desta maneira, acabam por defender, sem se darem conta, a alienação do trabalhador, que saberia usar um objeto tecnológico, mas não teria conhecimento de seu funcionamento ou dos aspectos éticos, filosóficos que o envolvem, tampouco conheceriam as bases da forma de pensar que possibilitou a idealização e produção do objeto. Os trabalhadores usariam computadores, notebooks, celulares e internet como um empregado de uma linha de montagem de automóveis durante o auge do fordismo, porém sua consciência de si, autodescoberta e ética devem vir de algo “superior”, esotérico.


Percebam o problema: os trabalhadores e trabalhadoras vivem em um mundo onde a internet tornou-se onipresente, porém não conhecem os princípios desta ou seus potenciais emancipatórios, usam a internet como mera técnica, ferramenta de trabalho ou de interação. A contradição entre um mundo cada vez mais dependente de tecnologia da informação e o aumento do poder do obscurantismo, em sua forma new age ou neopentecostal é fruto da relação fetichista que os trabalhadores no capitalismo possuem com a mercadoria, não a reconhecendo como fruto de relações materiais onde, como classe, exercem papel primordial, seja no papel de produtores ou consumidores. Consumimos computadores, mas de forma fetichizada, sem vê-los como fruto de relações sociais e da aplicação de força de trabalho, que envolvem diversos ramos e formas de exploração da natureza. O fenômeno do fetiche da mercadoria possibilita que alguém, dentro de um avião, afirme que a Terra é plana ou que alguém após tomar a vacina contra a gripe afirme que a teoria da evolução é falsa.


É íntima a relação entre o obscurantismo de nosso tempo com o fenômeno do fetiche da mercadoria. Então, consequentemente, a luta contra a relação alienada que os trabalhadores, enquanto classe tem com o fruto de seu trabalho e com os meios que o possibilitam passa, necessariamente, pelo enfrentamento do obscurantismo. Apenas através do pensar científico conseguiremos construir um mundo mais sustentável e seguro e democrático, porém, ao mesmo tempo, esse processo só poderá ser transparente e participativo se os trabalhadores e trabalhadoras pensarem cientificamente. O obscurantismo atrasa a consciência da classe trabalhadora, que fica impossibilitada de participar de debates centrais para seu cotidiano e para a continuidade da própria vida na Terra.


A esquerda marxista deve ser vanguarda no enfrentamento do obscurantismo, entendendo-o como uma das formas da visão fetichista da mercadoria, em todas as suas manifestações, e defensora radical da educação crítica e científica da classe trabalhadora, sendo este um pilar da construção de uma nova sociedade, que tenha como um de seus valores o desenvolvimento tecnológico acessível, igualitário, sustentável e crítico.


Para que a classe trabalhadora possa participar plenamente da construção de uma sociedade socialista, é imprescindível a derrota do pensamento obscurantista e de todos os seus grandes propositores.