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História do pensamento econômico do cristianismo

Uma História do pensamento econômico do cristianismo: como os EUA transformou a fé dos pobres em alicerce ideológico da exploração capitalista (Parte I)


Por Jaquelini Souza, historiadora ¹


Desde os céus fizeste ouvir o teu juízo; tremeu a terra e se aquietou, ao levantar-se Deus para julgar e salvar todos os humildes da terra. Salmos 76:8,9


Pequena nota introdutória


Em primeiro lugar é um enorme prazer contribuir para a página do Intelectual Orgânico, agradeço a meu ex-professor de história econômica, Darlan Reis Jr. pelo convite. E como cristã luterana praticante, não poderia perder a oportunidade de fazer um esclarecimento histórico, em tempos onde a maioria dos evangélicos brasileiros são encaminhados por grande parcela de seus líderes a se alinharem ao liberalismo econômico, usando até a Bíblia para justificar a escala 6x1, gostaria de iniciar uma série de artigos mostrando que em 2 mil anos de cristianismo, só um ramo das três tradições (Catolicismo, Protestantismo e Ortodoxia), é que deixou de ver a usura como pecado e enxerga o trabalho extenuante como excelente controlador social.

Nesta série de artigos pretendo demonstrar para vocês como esta “grande transformação”, parafraseando Karl Polanyi, aconteceu. Irei usar ramos do conhecimento provavelmente muito distantes do que os leitores da página estejam familiarizados, como teologia e ciências bíblicas (hermenêutica e exegese). Mas acredito que iniciaremos uma bela jornada descobrindo e redescobrindo a fé dos pobres, para muito, mas muito além da teologia da libertação. Espero que goste e te ajude a entender melhor seu parente ou amigo evangélico, para ter com ele um diálogo mais fraterno e humano.


O Deus dos pobres, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros




Quando falamos de pensamento cristão é impossível não falar de judaísmo, pois a maior parte de seus textos sagrados são também textos sagrados judeus. E apesar da imagem que temos de judeus prósperos, ricos, defensores do laissez-faire, o Deus dos hebreus é um Deus dos pobres, das viúvas, dos órfãos e dos estrangeiros.

Pastores evangélicos que usam o terceiro mandamento, sobre a guarda do Shabat, como argumento para defender a escala 6x1 ou não conhecem teologia (O que incrivelmente ainda é possível em certos ramos pentecostais ou igrejas modernas, as chamadas paredes pretas, pois não exigem a formação formal para tal) ou são desonestos. Pois o simples uso da razão simples na interpretação do texto nos diz que o mandamento é para descansar, não para trabalhar.

O trabalho é uma condição inerente ao ser humano, é impossível sobreviver sem trabalhar, mesmo que seja somente coletando alimentos. O trabalho já existia no Éden, Adão era um jardineiro, sua função era cuidar da criação e viver em harmonia com ela, portanto o trabalho não foi o castigo pelo pecado, mas sim a perda da eternidade, como diz Romanos 6:23, “O salário do pecado é a morte.”

Para Lutero, o pecado original não foi nem a desobediência, esta já foi consequência do pecado original, que para o grande reformador foi a desconfiança que Deus era capaz de suprir todas as necessidades humanas. Preste atenção no relato do Gênesis sobre a Criação: Deus cria o universo, depois a terra, o reino vegetal e animal e depois o homem, tudo preparado para este último sobreviver, mas não Eva.

Perceba que primeiro Deus permite que Adão se dê conta que está só, não existia uma fêmea para ele, como há para os machos dos animais, e o texto diz que Deus fez Eva para Adão, sem este o pedir. A narrativa de Gênesis quer deixar claro que Deus supre todas as necessidades humanas, estes pedindo ou não. Portanto, não haveria motivos para duvidar de Seu amor, só bastaria à humanidade não comer da fruta proibida.

Em suas preleções sobre Gênesis, Lutero nos mostra que esta é a raiz de toda a avareza, e venhamos e convenhamos, sentimento necessário para a exploração e o desenvolvimento do capitalismo. O pecado transformou o trabalho no Jardim, que era prazeroso, em penoso, pois a natureza foi maculada pelo pecado humano, surgindo terra dura, seca e espinhos, a paisagem de grande parte da Mesopotâmia.

A ordem para parar por pelo menos um dia está neste contexto. Não cultivar a terra ou cuidar dos animais em um único dia, em uma sociedade agropastoril seria um exercício de confiança na providência divina que não lhes deixaria sem mantimentos. Esta lógica se perpetua em toda Torá, no tempo em que os hebreus ficaram quarenta anos no deserto após da saída do Egito, Deus enviava comida todo dia, o famoso Maná, que deveria ser coletado somente para o sustento diário, quem coletasse a mais no intuito de guardar, portanto duvidando da providência diária de Deus, o alimento apodrecia. A única exceção estava na sexta-feira em que era autorizado coletar o dobro necessário para sobreviver o sábado, pois não poderiam coletar.

Na lei ou mitzvot, que não são apenas 10, mas 613 mandamentos, há ordenança de ano sabático (Levítico 25), a cada sete anos, o sétimo nada poderia ser cultivado, para dar descanso à terra e aos animais. E ano em que se chegasse ao ano seguinte ao múltiplo 7x7, ou seja o quinquagésimo ano, seria o ano do Jubileu (Levítico 25, onde além de não cultivar a terra, por ser sabático, escravos seriam libertos, dívidas seriam perdoadas e a terra deveria ser repartida igualmente novamente, ou seja, uma Reforma Agrária, todas essas medidas, especialmente o perdão de dívidas era para garantir que “Não haja pobres entre vocês” Deuteronômio 15:4, palavras do próprio Deus. Interessante como muitos pastores evangélicos esquecem disto, uma lei bem direta sobre justiça social, mas facilmente descontextualizam e manipulam outra para defender a escala 6X1.

Porém o antigo povo de Israel cumpriu poucas vezes essas duas leis em específico, pois no Segundo Livro das Crônicas dos Reis de Israel, diz que “Para que se cumprisse a palavra do Senhor, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.” 2 Crônicas 36:21. Ora se foi um ano para cada ano sabático não cumprido, sendo o tempo devido para tal 70 anos, 70x7=490 anos! Só uma observação, percebe a profundidade da fala de Jesus à resposta de Pedro quando pergunta quantas vezes deves perdoar, se sete vezes (número da perfeição na tradição judaica). Mas Jesus diz, 70 (lembrando os sábados em que não se deu descanso à terra, e, portanto os anos do Cativeiro) vezes 7. Ele o faz lembrar o quanto o povo judeu transgrediu a lei de Deus, sete vezes seria a perfeição para Pedro, mas Jesus elevou o padrão, como são pecadores contumazes devem perdoar sempre, pois transgrediram a lei de seu Deus.

Se levarmos em consideração que a tomada da terra de Canaã por Josué e o estabelecimento das 12 tribos de Israel aconteceu por volta de 1.250 a 1.200 a.C e que o cativeiro babilônico iniciou em 597 a.C, dá uma diferença de 653 anos, descontando os 490 em que não houve descanso para a terra, daria apenas 163 anos em que o ano sabático e o jubileu foram cumpridos, aproximadamente 23 anos sabáticos e apenas três jubileus. Estas duas leis visavam coibir que uma desigualdade social muito grande atingisse Israel, além de trabalhar a confiança na providência de Deus.

Inúmeros são os versículos ordenando não pervertem o direito dos pobres, órfãos, viúvas, estrangeiros, e Deus se coloca como vingador deles, que inclusive, são completamente esquecidos por parte considerável de líderes evangélicos no Brasil. Vejamos alguns:


·  Provérbios 22:22-23: "Não explores o pobre, por ser fraco, nem oprimas os necessitados no tribunal, pois o Senhor defenderá a causa deles e tirará a vida dos que os exploram".

 

·   Êxodo 22:22-23: "Não prejudiquem as viúvas nem os órfãos; porque se o fizerem, e eles clamarem a mim, eu certamente atenderei ao seu clamor".

 

·  Isaías 1:17: "aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva.”

 

·   Salmos 68:5-6: "Pai dos órfãos e protetor das viúvas é Deus em sua santa habitação.”

 

·   Deuteronômio 10:18-19: "Ele defende o direito do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito".


A “economia divina”, na linguagem de Roland de Vaux, em Instituições de Israel no Antigo Testamento não era desconectada da vida e da realidade social, como é no pensamento do mainstream econômico neoclássico atual. Portanto quem vê na Bíblia um “livro de princípios financeiros” como afirmou o pastor calvinista da Igreja Presbiteriana do Brasil, Hernandes Dias Lopes no programa do influenciador Thiago Nigro, o famoso Primo Rico, está olhando para a Bíblia de forma anacrônica, forçando a barra para encaixar nela uma ideologia liberal do século XVIII. No caso de Dias Lopes, suas falas no Primo Rico são vergonhosas, estão mais para desonestidade do que ignorância, pois um pastor presbiteriano recebe boa formação teológica no Brasil.


Nota explicativa

Lutero será nosso principal guia nesta jornada, não porque sou luterana, mas porque o ramo da tradição protestante que chancela o capitalismo é anti-ecumênico, não considera católicos e ortodoxos cristãos verdadeiros, nem mesmo vários grupos protestantes, até mesmo o luteranismo pós século XVII, mas Lutero, eles respeitam. Por isso, para refutá-los, precisaremos dele.

Continua...



1Historiadora (URCA), Doutora em Teologia (EST), Pós-doutorado em economia (PUC-SP).

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