O verdadeiro dilema das redes


Sued Carvalho, professora


Recentemente foi lançado o documentário “O dilema das redes” na plataforma de streaming Neflix. A película dirigida por Jeff Orlowski logo colocou a internet em polvorosa, os youtubers progressistas postaram vídeos afirmando estarem em “choque”, assustados e sem saber o que fazer. Bem, é natural que a esquerda emocionada se emocione, até pela própria natureza da plataforma onde operam, o youtube, onde manter o engajamento é extremamente difícil e desgastante, assim sendo é necessária a abordagem mais sensacionalista e comovente possível. Este não é, contudo, o papel da esquerda marxista.


Primeiro e preciso nos situarmos no fato de que as redes sociais não instauram um fenômeno novo, apesar das tecnologias serem, obviamente, recentes, estas se inserem em um processo já de longa duração, onde “Não é tanto a duração da semana de trabalho que é importante, o importante é saber e programar o que os trabalhadores farão durante o famoso “tempo livre”, o que eles consomem, aonde vão..” (Lukács, 2020, p. 215). O lucro retirado da atenção constante, o uso refinado da psicologia para controlar, viciar em hábitos e o a indústria do marketing já são velharias advindas do Século XX, porém a internet, as redes sociais e, especificamente, os smartphones aceleraram de forma assustadora essa tendência, que chega a um ápice digno de um episódio de “Além da Imaginação”, onde algoritmos controlam o que vemos e, tentam manter nossa atenção a todo custo e, até mesmo podem mudar nossa personalidade. Se o objetivo da rede social e dos apps em geral é dar lucro, logo é bom para o mercado que os usuários (Consumidores) façam uso máximo deles, é bom para o mercado e para os acionistas que fiquem viciados e, obviamente, se lucra mais vendendo dados para empresas de propaganda do que cobrando mensalidades e estas empresas de propagandas usarão estes dados em seus serviços, seja quem for o contratante. É apenas a lógica do capital em reprodução através desta fascinante nova tecnologia.


Desta forma, a tal da revolução 4.0 não inaugura uma nova forma de controle e consumo, mas o aprimora absurdamente. Entretanto, não podemos cair em um negacionismo tosco e desesperado, as redes sociais, as plataformas, a internet e, mesmo o algoritmo, são maravilhas da inventividade humana, representam um avanço que, deveria, facilitar e muito a vida de todos e todas e poderiam representar um caminho para uma sociedade mais sustentável, logo o problema não está nesta vitória do trabalho humano, mas na lógica que o atravessa. Karl Marx (2013, p. 513), no século XIX, escreveu:


As contradições e os antagonismos inseparáveis da utilização capitalista da maquinaria inexistem, porquanto têm origem não na própria maquinaria, mas em sua utilização capitalista! Como, portanto, considerada em si mesma, a maquinaria encurta o tempo de trabalho, ao passo que, utilizada de modo capitalista, ela aumenta a jornada de trabalho; como, por si mesma, ela facilita o trabalho, ao passo que, utilizada de modo capitalista, ela aumenta sua intensidade; como, por si mesma, ela é uma vitória do homem sobre as forças da natureza, ao passo que, utilizada de modo capitalista, ela subjuga o homem por intermédio das forças da natureza.


Marx se refere, obviamente, a máquinas centenas de vezes mais primitivas do que nossos bem desenhados e sofisticados smartphones, porém essa é a forma, devemos nos ater ao conteúdo: O avanço da tecnologia deveria facilitar a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras, porém, na mão dos capitalistas, transformam-se em ferramentas de aprofundamento da exploração. Uma ferramenta como os e-mails, facebook, whatsapp, etc, possuem um potencial emancipador imenso, de racionalização da produção, de encurtamento de distâncias e de democratização do conhecimento, entretanto, na lógica do capital, transformam-se em uma avalanche de propaganda e de incentivo ao consumo desenfreado.


Assim, não podemos culpar estas tecnologias por todos estes problemas, mas sim a lógica que são programadas para reproduzir. Entretanto, existem outras dimensões em que as sociedades capitalistas acabam por radicalizar suas contradições, recorrerei mais uma vez a Marx (2011, p. 47):


A produção, por conseguinte, produz não somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. Logo, a produção produz o consumo, na medida em que 1) cria o material para o consumo; 2) determina o modo do consumo 3) gera como necessidade no consumidor os produtos por ela postos primeiramente como objetos. Produz, assim, o objeto do consumo, o modo do consumo e o impulso do consumo. Da mesma forma, o consumo produz a disposição do produtor, na medida em que solicita como necessidade que determina a finalidade.

O produto deste mercado não é apenas o produto, mas também o consumidor, não existiam pessoas viciadas nestes aparelhos antes destes aparelhos existirem, obviamente, seu lançamento no mercado, as estratégias de propaganda e, posteriormente, as formas de viciar e reter a atenção geraram o “consumidor” e popularizaram estas ferramentas que, como já exposto, são consumidas na lógica do capital. Quem é, portanto, o consumidor dessas tecnologias na sociedade capitalista contemporânea? O trabalhador e a trabalhadora estanhada.


Como assim? Bem, é um dos principais pilares da Ideologia liberal a ideia de que a sociedade é dividida por diferentes níveis, do qual o indivíduo é o mais atomizado. A sociedade seria, então, construída pelos indivíduos trocando seus interesses, sendo o ideal uma regulamentação que definisse os limites do “onde começa minha liberdade e termina a sua”. Esse ideal de indivíduo atomizado, que luta por seus interesses molda a imagem que construímos nossa autoimagem, deixamos de nos perceber como partes de uma generidade e em constante relação de mediação com outros indivíduos, com a totalidade da sociedade e da natureza e passamos a perceber apenas um lado da questão: O de que somos singularidades em competição. Esta lógica é indispensável ao pensamento liberal e, pode-se dizer, não existe capitalismo sem este individualismo.


Contudo, na crítica de Marx (2004, p. 127) esta percepção aparece como uma falsa consciência, pois nossa própria percepção surge não apenas de nossa mente única e individual, mas de forma relacional:


Um ser que não tenha a natureza fora de si não é nenhum ser natural, não toma parte na essência da natureza. Um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não seja ele mesmo objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser para seu objeto, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é nenhum ser objetivo.

Simplificando: Nos definimos enquanto humanos por nascermos em uma sociedade que já havia criado essa definição, construímos referências para nossa auto avaliação a partir da nossa relação com outras e outros em um contexto-chave, falamos português por vivermos com pessoas que falam este idioma e temos determinado pensamento religioso como referência por crescermos em uma sociedade que tem religião X como majoritária. Sendo assim, nossa própria existência enquanto indivíduos conscientes da própria individualidade só é possível por vivermos em sociedade. Lukács (2014, p. 294) desenvolve:


Obviamente, todo ser vivo, ao mesmo tempo que é um exemplar de seu próprio gênero, é também um singular, um exemplar singular concreto (...). A necessidade acima indicada de que, na práxis social e através dela, a consciência humana não só forma dentro de si mesma uma continuidade mais elevada, fixada conscientemente, mas também a centra incessantemente no portador material, psicofísico, dessa consciência tem como consequência, no plano ontológico, que o ser-em-si natural da singularidade nos exemplares genéricos se desenvolve na direção a um ser-para-si e transforma o homem, tendencialmente, numa individualidade.

Nossa individualidade só é possível por vivermos dentro de uma sociedade que desenvolveu suas forças produtivas o suficiente de forma a construir tal conceito, logo ao mesmo tempo que somos singulares, somos também exemplos de uma generidade, somos indivíduos em constante mediação com a totalidade da sociedade. O estranhamento surgiria exatamente dai. O indivíduo torna-se incapaz de perceber-se como parte da sociedade, acha-se único, isolado, não se reconhece na práxis social da qual é partícipe e construtor, não consegue notar essas relações de mediação entre sua unicidade e sua generidade: “Com efeito, das exposições feitas até aqui restou claro o seguinte: o estranhamento de todo homem singular brota diretamente de suas inter-relações com sua própria vida cotidiana.”. (2013, p. 637).


É este indivíduo estranhado no capitalismo que consome a rede social, acredita que está criando seu “perfil”, sua “imagem” e que controla, virtualmente, seu meio social, não se dando conta de toda a lógica que perpassa a tecnologia, assim como não percebe que as redes sociais não são espaços de construção “individualidade”, mas de socialização extrema, em que existe todo um éthos, assim como diversas relações de afetividade, consumo e produção. Imagina-se individualizado quando, na verdade, está em constante sociabilidade online; acredita estar controlando as alternativas enquanto seus hábitos e informações são transformados em mercadorias, não reconhecendo seu próprio papel nessa rede de mediações. Pensa-se aparte, quando é parte.


O estranhamento não é invenção das redes sociais ou dos smartphones, existiu em todas as sociedades humanas até agora e, no capitalismo, ganhou um nível de reprodução inédito, onde, primeiro, o operário vê-se apenas como indivíduo descolado do meio social, não se reconhecendo no fruto de seu trabalho, tampouco se vendo como parte de uma classe social e/ou tendo sua identidade diluída na competição do “mercado de trabalho”, porém o processo foi acelerado a um nível onde as trabalhadoras e trabalhadores sentem-se cada vez mais atomizados, sozinhos e descolados quando estão, na verdade, em constante interação social, assim como agora produzem riqueza quase vinte e quatro horas por dia, até quando estão “desopilando” após um dia de trabalho.


O estranhamento chegou a um nível jamais imaginado por Karl Marx ou Lukács. É certo que o problema não são as tecnologias, mas a lógica a qual servem, porém também fica claro que chegamos a um impasse histórico: Teriam as contradições essenciais do capitalismo (Riqueza produzida de forma cada vez mais socializada (Embora não percebida como tal pelos trabalhadores), porém individualmente apropriado pelo burguês, por exemplo) chegado a seu limite derradeiro? Se produzimos riqueza até em nossos momentos mais íntimos e ociosos o que falta?


As trabalhadores e trabalhadores, entretanto, não são zumbis, protestam em suas categorias contra a precarização do trabalho e esta chamada “uberização” e o uso indevido de dados, apesar de, como classe, não conseguirem entender toda a cadeia de produção na qual estão envolvidos (Apesar da reação, permanece o estranhamento). A consciência de classe não vem sozinha, é preciso que uma vanguarda revolucionária trabalhe junto com todas e todos que estão protestando para transformar a luta não em um processo de embate por diretos, mas em uma luta por emancipação enquanto classe. Como liberar o potencial emancipatório da luta contra a precarização e pelo uso “ético” da tecnologia digital? Eis ai o verdadeiro dilema das redes.

Bibliografia:

MARX, Karl. Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857-1858. 1ª ed., Boitempo Editorial, São Paulo, 2011.

MARX, Karl. Manuscritos econômicos filosóficos. 1ª ed., Boitempo Editorial, São Paulo, 2004.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política: Livro I. 1ª ed. Boitempo Editorial, São Paulo, 2013.

LUKÁCS, Gyorgy. Colóquio com Gyorgy Lukács in FORTES, Ronaldo Vielmi (Org). Essenciais são os livros não escritos Últimas entrevistas (1966-1971), 1ª ed. Boitempo Editorial, São Paulo, 2020.

LUKÁCS, Gyorgy, Para uma Ontologia do ser social II. 1ª ed., Boitempo Editorial, São Paulo, 2014.

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