Porque tentaram vetar Engels no ENEM 2021

Por Darlan Reis Jr., historiador





Não foi surpresa para os marxistas, a notícia veiculada no dia 21 de novembro, no Jornal "O Estado de São Paulo", com o seguinte título: Questão sobre luta de classes com texto de Engels havia sido vetada - Segundo o Estadão apurou, a pergunta foi retirada numa primeira versão da prova, mas teve de voltar para que o exame não ficasse descalibrado.





Não foi surpresa porque sabemos como a censura contra os pensadores marxistas ocorre todos os dias, seja dentro das universidades (mesmo as que dizem defender a "pluralidade"), escolas, partidos políticos de Esquerda, de forma velada, ou pelos grandes conglomerados de comunicação, ou partidos políticos de direita, como os fascistas e assemelhados, que fazem isso de forma aberta.


E qual foi a tão temida questão, que instigou a tentativa de censura a Engels?




Uma questão retirada do livro "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra", datada do século XIX. Essa foi a "perigosa" questão sobre a qual os jovens não podem refletir...



Mas a verdadeira "questão" é: por que tanto medo, receio, veto à obra de Engels? Por que a questão das lutas de classes é censurada, ou tentam desqualificar quem a discute? Talvez lendo os autores e autoras que tratam do assunto, possamos entender o motivo de tanta preocupação.


Engels denunciou a exploração do trabalho infantil:


“A elevada mortalidade que se verifica entre os filhos dos operários, e particularmente dos operários de fábrica, é uma prova suficiente da insalubridade à qual estão expostos durante os primeiros anos. Estas causas também atuam sobre as crianças que sobrevivem, mas evidentemente os seus efeitos são um pouco mais atenuados do que naquelas que são suas vítimas. [...] O filho de um operário, que cresceu na miséria [...], na umidade, no frio e com falta de roupas, aos nove anos está longe de ter a capacidade de trabalho de uma criança criada em boas condições de higiene. Com esta idade é enviado para a fábrica, e aí trabalha diariamente seis horas e meia (anteriormente oito horas, e outrora de doze a catorze horas, e mesmo dezesseis) até a idade de treze anos. A partir deste momento, até os dezoito anos, trabalha doze horas. Aos fatores de enfraquecimento que persistem junta-se também o trabalho. É verdade que não podemos negar que uma criança de nove anos, mesmo filha de um operário, possa suportar um trabalho cotidiano de seis horas e mais sem que daí resultem efeitos nefastos visíveis, de que este trabalho seria a causa evidente. Mas temos que confessar que a permanência na atmosfera da fábrica, sufocante, úmida, por vezes de um calor morno, não poderia em qualquer dos casos melhorar a sua saúde." (ENGELS, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra).


Karl Marx denunciou o imperialismo inglês na Índia:


"Foi o invasor britânico que quebrou o tear manual e destruiu a roda de fiar. A Inglaterra começou por privar os algodões indianos do mercado europeu; introduziu depois o fio no Indostão e, no fim, inundou de algodões a própria terra natal do algodão. De 1818 a 1836, a exportação de fio da Grã-Bre-tanha para a Índia cresceu na proporção de 1 para 5200. Em 1824, a exportação de musselinas britânicas para a Índia mal chegava a 1 000 000 de jardas, enquanto em 1837 ultrapassou os 64 000 000 de jardas. Mas, ao mesmo tempo, a população de Dacca desce de 150 000 habitantes para 20 000. Este declínio nas cidades indianas famosas pelos seus tecidos não foi de modo algum a pior consequência. O vapor e a ciência britânicos destruíram, em toda a superfície do Indostão, a união entre a agricultura e a indústria manufactureira". (MARX, Karl. A Dominação Britânica na Índia).


Friedrich Engels denunciou o patriarcalismo e a dominação masculina sobre as mulheres:


A monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história. Num velho manuscrito inédito, redigido em 1846 por Marx e por mim,encontro a seguinte frase:
"A primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos".
Hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade. (ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado).

Engels escreveu sobre socialismo, comunismo, sobre o proletariado:


"2.ª P[ergunta]: Que é o proletariado?
R[esposta]: O proletariado é aquela classe da sociedade que tira o seu sustento única e somente da venda do seu trabalho e não do lucro de qualquer capital; [aquela classe] cujo bem e cujo sofrimento, cuja vida e cuja morte, cuja total existência dependem da procura do trabalho e, portanto, da alternância dos bons e dos maus tempos para o negócio, das flutuações de uma concorrência desenfreada. Numa palavra, o proletariado ou a classe dos proletários é a classe trabalhadora do século XIX". (ENGELS, Friedrich. Princípios Básicos do Comunismo).

Marx escreveu sobre a questão da escravidão:


“Nos Estados Unidos da América do Norte, todo movimento operário independente ficou paralisado durante o tempo em que a escravidão desfigurou uma parte da república. O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro. Mas da morte da escravidão brotou imediatamente uma vida nova e rejuvenescida. O primeiro fruto da guerra civil foi o movimento pela jornada de trabalho de 8 horas, que percorreu, com as botas de sete léguas da locomotiva, do Atlântico até o Pacífico, da Nova Inglaterra à Califórnia. O Congresso Geral dos Trabalhadores, em Baltimore (agosto de 1866), declarou: ‘A primeira e maior exigência do presente para libertar o trabalho deste país da escravidão capitalista é a aprovação de uma lei que estabeleça uma jornada de trabalho normal de 8 horas em todos os Estados da União americana. Estamos decididos a empenhar todas as nossas forças até que esse glorioso resultado seja alcançado.” (MARX, Karl. O Capital).

São por esses posicionamentos e reflexões, dentre outros, que de forma contínua, muitas vezes velada, outras vezes de forma explícita, ocorre a censura contra Marx, Engels, Lênin, Gramsci e demais autores que trataram do tema das lutas de classes.


Fiz um vídeo de curta duração sobre a questão das lutas de classes, que pode ser acessado no canal Intelectual Orgânico, no Youtube:





Porém, informo a você que leu até aqui, o vídeo que causou maior indignação entre os bolsonaristas foi aquele em que tratamos da questão de Antonio Gramsci, outro autor que é odiado pelas hostes fascistas:




Estes são alguns dos motivos por tanto temor da Direita sobre a questão das lutas de classes, mas infelizmente, não estão restritos à Direita. A Esquerda Liberal e o ambiente acadêmico são praticantes do silenciamento quanto aos autores que abordam as lutas de classes.