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Quem quer concorrer a cargo eletivo precisa fazer um discurso de enfrentamento ao racismo


Professor Nicolau Neto. (FOTO/ Lucélia Muniz).

Por Nicolau Neto, professor


As pessoas mais atentas aos nossos textos - publicados no Blog Negro Nicolau ou no Intelectual Orgânico - logo constatarão que damos destaques a dados que desvelam o quanto o Brasil – último pais do mundo a acabar legalmente com a escravidão – é um nação racista.


Quase sempre nas nossas escritas inserimos dados das desigualdades raciais no Brasil. Ano passado, por exemplo, trouxemos uma informação em que uma ação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que a partir das eleições de 2022 os recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário utilizados nas campanhas devem ser repartidos de forma proporcional ao número de candidatos e candidatas negras de uma legenda. A postura do TSE caminha no sentido de enfrentamento ao racismo. Não resolve o problema, mas contribui para o combate. Em outra oportunidade, no mesmo ano, analisamos um dado do Atlas da Violência 2020. Por ele, constatamos que a taxa de homicídio de negros aumentou 11,5% em dez anos, enquanto que a de não negros caiu 12,9%.


No Brasil a pouca representatividade de negros e negras na política - um dos principais espaços de decisão - salta aos olhos. Há, por outro lado, uma predominância de brancos, mesmo esse território sendo o mais negro fora do continente africano. Segundo o último levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 56,10% das pessoas se declaram negras. Maioria na população, mas minoria nos espaços de poder. Para se ter uma ideia, apenas 24 dos 513 deputados/as são negros/as; apenas 3 dos 81 senadores/as são negros/as; apenas 1.604 dos 5.570 prefeitos/as são negros/as; apenas 24.282 dos 57.838 vereadores/as são negros/as; nenhum dos/as governadores/as dos estados e do DF são negros e para piorar a situação, o presidente eleito não demonstra nenhum apreço pela causa negra. Isso não te incomoda?

Negros/as só são maioria nas delegacias; nos números de desempregados ou em empregos que ganham menos; no número de pessoas que não conseguem concluir seus estudos; nos homicídios.... Isso não te incomoda? A pandemia do novo coronavirus escancarou e aumentou ainda mais essa desigualdade racial.


O silêncio é uma forma poderosa de racismo.

É necessário pontuar que há uma disputa diária por narrativa e um enfrentamento de discursos propagados por uma elite política e econômica branca que tentam a todo custo deslegitimar todas as conquistas da comunidade negra e ao mesmo tempo descaracterizar ações dos movimentos negros, de professores, professoras e demais pessoas engajadas na luta por uma sociedade com equidade racial e de gênero. Cito como exemplos recentes o presidente da república, Jair Bolsonaro e o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo. Este último, inclusive, classificou o movimento negro de “escória”.


E olha que não preciso ir tão longe para apontar a falta de envolvimento e de empatia das pessoas que não se consideram negras nessas discussões. E até de negros e negras que silenciam diante dessa problemática. A História explica o porquê desse silenciamento dos irmãos e das irmãs negras. Cito Altaneira e outros municípios vizinhos onde isso fica evidente. As discussões sobre racismo, por exemplo, ficam restritas a quatro pessoas, no máximo.


Em 22 a gente vai às urnas para escolher mais uma vez deputados/as estaduais e federais, senadores/as, governador/a e presidente/a. Aproveito a oportunidade onde as articulações já estão aparecendo e nomes sendo ventilados, para fazer uma alerta a você eleitor/a e para aqueles e aquelas que desejam concorrer a cargos políticos eletivos. Não dá para querer ser representante do povo e não fazer um discurso de enfrentamento ao racismo; não dá para querer ser representante do povo e não apresentar um plano de combate ao racismo.


Ao mesmo tempo lembro que não dá para ir as urnas simplesmente para votar naquele que é antibolsonaro, antimoro, e que fale que eles em pouco ou em quase nada se diferenciam. Não é suficiente ser somente contra candidatos que fazem da polícia um instrumento político partidário. É preciso verificar o que cada um e cada uma tem de enfrentamento ao racismo estrutural. Afinal, não há democracia plena com a permanência do racismo.

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