Uma Coreia ocupada contra uma Coreia independente? O caso do Camp Humphreys

Por Sued Carvalho, professora



Toda fronteira é artificial, representam interesses políticos e são frutos de narrativas inventadas e conflitos históricos. Apesar de a artificialidade das fronteiras serem um fato, variam os níveis de legitimidade entre elas, algumas não são apenas artificiais, são completamente arbitrárias, o que leva, cedo ou tarde, a tensões. Exemplos clássicos são as divisões na África feitas à régua na conferência de Berlim em 1884, tais linhas atendiam a demanda dos Europeus, não respeitando a cultura e História dos autóctones, logo, quando tais territórios se tornaram independentes no Século XX, precisaram lidar com os conflitos territoriais e étnicos que haviam estado represados pela opressão imperialista.


Costumamos lembrar da conferência de Berlim e agir como se esse hábito, o de dividir países alheios com réguas, tivesse parado no Século XX, o que não é verdade. O Vietnã foi vítima desse processo, sendo dividido entre Vietnã do Norte e do Sul após a independência, tentativa, por parte dos EUA, de impedir o avanço dos comunistas comandado pelo Hoh Chi Mihn. Os comunistas vietnamitas venceram, é verdade, porém temos, em pleno Século XXI, um dos últimos conflitos frutos da política de contensão dos estadunidenses estacionado: A questão da Coreia.


Vou dar ao raciocínio um início forte, a Coreia foi dividida arbitrariamente, metade dela ocupada e colonizada pelos Estados Unidos da América e a outra resistiu, através de uma revolução socialista, a tal investida. O Norte segue um caminho independente, livre e autônomo, enfrentando os problemas frutos deste isolamento e o Sul prossegue ocupado e colonizado. Neste texto irei exemplificar este fenômeno através das contradições geradas pelo estabelecimento do quartel general da ocupação norte-americana em solo coreano: o Camp Humphreys.


Camp Humphreys é uma base militar dos Estados Unidos na Coreia do Sul, é a maior fortaleza ianque no exterior. A estrutura do campo é impressionante, uma verdadeira cidade, um paraíso para os militares estadunidenses. Apenas sessenta quilômetros a distanciam de Seul, a base, que tem capacidade para 50 mil habitantes, conta com shopping, largos refeitórios, escolas primárias, secundárias e Universidade gratuitos para os filhos e filhas dos militares da força de ocupação.


A expansão da base foi anunciada em 2017, com o objetivo de tornar a estadia dos oficiais estrangeiros e suas famílias mais confortável, os termos são humilhantes: 7 dos 11 bilhões do custo da obra seriam (E estão sendo) bancados pelo governo da Coreia do Sul, assim como uma larga área rural próxima a Seul deveria ser assegurada para a construção, resultando em remoção dos camponeses que ali viviam, assim como na destruição de ecossistemas locais, afetados tanto pela modificação, como pela poluição dos pesados veículos militares. Os protestos contra a reforma foi levados a organizados por movimentos de camponeses e por ambientalistas, que, como era de se esperar, não tiveram êxito contra a maior potência militar do mundo contemporâneo.


Traduzindo: O governo fantoche da Coreia do Sul se compromete a ajudar e manter instalações militares imperialistas, assegurando bem estar social aos ocupantes enquanto não garante saúde, pleno emprego, aposentadoria, Universidade pública gratuita e salários dignos a sua própria população. Isso mesmo, um invasor norte-americano vive melhor na Coreia do Sul do que um nativo e esta bonança é paga, em parte, com os impostos dos próprios cidadãos.


Os afetados são muitos: Os norte-coreanos sentem-se provocados diante da expansão de uma base militar gigantesca pensada e projetada para ameaçá-los, os sul-coreanos são obrigados a bancar uma guerra que sequer é de seu interesse imediato, enquanto tem negados seus direitos mais básicos, da mesma forma os cidadãos estadunidenses em casa, que não tem acesso às regalias desta elite militar. Os Estados Unidos afirmam que estão ali para manter a estabilidade da região, porém são eles que causam a desestabilização com provocações na fronteira e boicotando qualquer tentativa de negociação Sul-Norte. A permanência dos estadunidenses em Seul leva a militarização e a animosidade em toda a área, esta ocupação leva os norte-coreanos a se armarem até os dentes, afinal quem ficaria tranquilo dormindo ao lado de um pitbull raivoso?


Mas para que serve esta política? A continuação da interminável Guerra da Coreia é a desculpa dada pelos imperialistas para permanecer sufocando o regime de Pyongyang, mas não apenas, é também a justificativa para manter o controle sobre o Pacífico à custa da independência de todos os povos da Ásia e da Oceania, subordinando-os aos interesses da burguesia ocidental, faminta por novos mercados consumidores e mão-de-obra barata.

Camp Humphreys é o símbolo maior do que significa a “intervenção estadunidense” na Ásia: Perca da autonomia, aumento da exploração, fome e guerra interminável. É isto que o patriota de goela, Jair Bolsonaro, deseja para o Brasil ao entregar, por exemplo, a Base de Alcântara, no Maranhão, ao Pentágono.


O Imperialismo está ai, não é um conceito ultrapassado, muito pelo contrário. À esquerda liberal que ataca e reproduz as mentiras sobre a Coreia do Norte cabe perguntar: De que lado estão, afinal?

Fontes consultadas:

ANDERSON, Perry. A Política externa norte-americana e seus teóricos. 1ª ed. Boitempo Editorial, São Paulo, 2015.

Fisher, Franklin. 1,100 students demonstrate against expansion of U.S. base. Disponível em: https://www.stripes.com/news/s-koreans-rally-at-camp-humphreys-fence-to-protest-u-s-presence-1.36754. Acesso em 19/07/2020.

GALLEGOS, Maria. USO expansion at Camp Humphreys. Disponível em: https://www.army.mil/article/231067/uso_expansion_at_camp_humphreys. Acesso em 19/07/2020.